Sistema atualizado com sucesso

Muito provavelmente você já sabe sobre as mazelas da maternidade. Da paternidade então, nem se fala. Mas talvez alguns ganhos preciosos não fiquem tão explícitos e, assim camuflados, podem fazer com que a gente perca excelentes oportunidades por pura desatenção.

Sabe quando falam que só vale a pena tem um Iphone se você souber aproveitar todos os recursos? É quase isso. Venho anotar três grandes recursos que a maternidade me proporcionou (válidos também para a paternidade, olha só!) para que eu não esqueça nem um segundo de aproveitá-los:

  1. Leveza

Tá, o amor explosivo e o entretenimento constante já sabemos que ganhamos com uma criança em casa. Mas quando a gente sente que tem licença poética para levantar e dançar no meio da sala, falar com voz esquisita, fazer bolo fora de hora…isso sim que é poder. Não precisa saber brincar de lego para ter uma vida brincante, a gente pode fazer tudo o que um adulto faz, só que de maneira mais divertida, mais leve. Nessa hora a criança que fomos nos resgata, para poder se conectar com a criança que seremos. Se você ainda buscava sentido pra vida, esse pode ser um deles, é só usar.

2. Sociabilidade

Existe uma atualização no nosso sistema social, quase imperceptível. Quando uma mãe encontra a outra, não precisa mais tanto tempo para criar uma amizade – já temos algo em comum que nos faria conversar por horas, dias, meses, anos. E como amaremos essa identificação! Depois nos julgaremos, choraremos, faremos as pazes, perdoaremos e brincaremos juntas de novo. Falei brincaremos? Quis dizer que seremos amigas. Assim, não que a gente faça amizade que nem nossos filhos, mas sim… será fácil igual é para as crianças.

Funciona mais ou menos assim: coloca-se o bebê no carrinho e vai dar uma volta. Se há outra mãe pelo caminho, a gente cumprimenta automaticamente aquela que antes era só uma estranha. Se chegando ao mercado, avista alguma delas levantando o bebê para cheirar o bumbum, a gente chega perto e oferece uma fralda limpa. Aquele olhar de compreensão já garante uma amizade que antes, demorava muito para chegar a esse nível de desenvolvimento.

É quase uma sociedade secreta. Uma benção.

3. Autoconhecimento

Tomar decisões pela vida de outra pessoa, basicamente nos obriga a pensar nas decisões que fizemos por nós. Se a gente quer que a alimentação do filho seja repleta de nutrientes, acabamos por olhar também para o nosso prato e nos questionar o que nos levou a não pensar com tamanho carinho por nós mesmos.

Anos de terapia não trouxeram o autoconhecimento adquirido em alguns poucos anos de maternidade. Simplesmente porque os piores sentimentos vem à tona de maneira incontrolável. A gente vive, senta, chora, levanta e decide recomeçar melhor, mais forte. Por eles, mas na verdade, é por nós.

 

MBA Materno

Os cinco meses de gestação estavam por se completar quando eu entrei em pânico. Por algum motivo, queria desfazer o feito. Nada contra o bebê, eu só não queria ser mãe. Achei que eu não daria conta de finalizar a faculdade, engordar, parir, amamentar, emagrecer, cuidar da casa, ser esposa, trabalhar e ter amor próprio, enquanto crio um outro ser humano inteirinho.

Eu estava certa, não dei conta mesmo. Mas eu não sabia que não precisava dar conta. Então segui a caminho da consulta ao obstetra, chutando a sombra. Dr. Gerry Agnew tinha a sala de espera cheia de casais que se entreolhavam em um carrossel de amor. Esposas que falavam baixinho e então os maridos levantavam de supetão, para buscar água para toda a família que habitava um único ser humano.

Pensando em fugir, vi que não teria escapatória. E essa frase se repete até hoje, quando penso no meu cotidiano, e é justamente por ela que eu entendo que enfrentar a maternidade não me transformou só de amores. Nem só de dores. Mas eu virei tipo uma fucking ceo de qualquer coisa que apareça pela frente, porque amigos, quando não tem escapatória, a gente joga pro peito, marca gol e pede música no Fantástico.

É comum me ver preparando o almoço enquanto anoto lista de compras e pergunto sobre a escola, administrando as emoções dos conflitos do jardim de infância. A criança atirou o prato de comida no chão? Sem problemas, enquanto limpo, sou firme e doce explicando o ocorrido. O interfone toca e eu assino o condomínio enquanto espio a criança se engasgar com o suco. Não foi nada. Vem cá que eu vou te dar banho enquanto marco o ortopedista. Enquanto marco o dentista. Enquanto marco a pediatra. Enquanto marco meu analista.

Se isso não me der a maior habilidade multitask do planeta, nada dará. Antes da maternidade, só me orgulhava de ler três telas simultâneas…tsc tsc tsc

Habilidades antes ignoradas também foram aperfeiçoadas, como: manter a calma e paciência diante de um choro intermitente, para que a semana continue nos eixos. Praticamente um treinamento para evacuar um prédio salvando a todos, com uma sirene em volume máximo dentro do cérebro.

Quando a criança tira a soneca da tarde, devo me orgulhar da otimização máxima do tempo, algo que eu desperdiçava sem dó. Hoje sou capaz de tomar banho, secar cabelo, fazer máscara facial, tomar vinho, comer chocolates, assistir uma série e ler três páginas de uma livro em uma hora e trinta e sete minutos que chamo de “spa do bom humor”, a minha happy hour.

Enquanto escrevo, a máquina lava roupas pretas, tomo meu café da manhã e respondo Whatsapp de ontem à noite. Talvez eu consiga melhorar esse aproveitamento, hein? Já sei. Vou atualizar o LinkedIn.

 

 

 

 

Para Liz, com amor

Tem gente que faz retiros em meio a montanha e fica por dias em silêncio. Tem aqueles que buscam a floresta para experimentar o chá de Ayahuasca. Tem também os que percorrem todo o caminho de Santiago de Compostela. Há ainda quem acorde cedo e medite, diariamente.
Eu gerei uma vida e pari. Foi assim que enfrentei meus demônios, dizimei meus medos. Mês a mês, meu corpo me transformou. Chorei. Amei. Abri mão. Agradeci.
Eu me senti sozinha. Eu engordei e me vi bonita. Eu repensei meus preconceitos para não te levar a caminhos que não foram suas escolhas, filha. Você rompeu meus dias de silêncio e dançamos por horas, celebrando a chegada de sua chegada.
Era a primeira manhã de neve quando sentimos a mesma dor, juntas. Gritamos e espantamos todas as bruxas. Ficamos só nós, anjos e fadas. Conosco ninguém podosco, madame.
Nos colocamos em um mesmo espaço, nos encaramos face a face por madrugadas a dentro. E de repente um clarão: eu, que já fiquei acordada tantas noites por medo de prova da escola, por trabalhar demais, por levar um pé na bunda…te agradeço por tirar o meu sono, com toda nobreza de causa.

Filha, é uma delícia me encontrar no seu berço. Te encontrar nos meus braços.

Que nosso cordão seja infindo. Amém.

Obs. Você nasceu, mas nunca sairá de dentro de mim. Não esquece.