Arts and Craft Design

A falta de atualização por aqui tem alguns motivos felizes. Um deles é o curso de Arts and Craft Design que estou fazendo em tempo integral aqui na Irlanda.

Quando vim para cá, decidi que gostaria de explorar melhor coisas que sempre me interessaram mas que eu ainda não tinha parado para me dedicar. Com a rotina corrida e estressante de São Paulo, diversas vezes eu me peguei com o olhar perdido em uma cozinha minúscula de escritório, pensando como seria bom me conhecer melhor e me permitir ter novas experiências. Mas o café que me sustentaria até o final da tarde logo acabava e eu teria que entrar em uma outra reunião.

Eu não tinha a pretensão de viver viajando enquanto fazia home office pelo mundo. Eu só achava que a vida é muito longa para gastarmos com uma única profissão. Uma única especialidade. Fechando as portas para qualquer outro talento que você possa a vir desenvolver mesmo se, no final das contas, ele não lhe render o mesmo dinheiro que você já conquistou.

 E se eu fosse uma excelente cozinheira? E se de repente eu sou uma ótima ilustradora? Vai que eu me dou super bem em artes circenses…

Eu precisava me dar a chance de aprender coisas que sempre gostei. E foi assim que fiz meu primeiro curso de Design de Jóias. Meses depois, ao fim do curso, eu já estava na terceira entrevista do processo seletivo para estudar Arts and Craft Design, sem saber ao certo o que me esperava.

Passados os meses de descobertas e adaptações, agora já sei trabalhar com estampas, esculturas, bordado, corte e costura, feltragem artesanal (molhada e seca), stencil, ilustração, tintas, lãs, linhas e crochê. Participei de workshops com especialistas em Patchwork tradicional e modelagem e bordado em materiais solúveis. No final do ano, passamos uma semana juntos fazendo velas e sabonetes artesanais como presentes de Natal para relaxar um pouco.

Foram meses de dedicação e já faço apliques, bolsas, almofadas, bonecos e esculturas. Misturo técnicas. Tenho uma nova turma de amigas que, por termos interesses em comum, tornam as conversas e trocas de experiências ainda mais deliciosas. Elas me ensinam muito sobre a cultura irlandesa e eu busco trazer muito do Brasil para meus trabalhos também.

E apesar de muitas aulas serem práticas, todo trabalho passa por uma avaliação teórica. Isso significa que é necessário fundamentar cada peça apresentada em uma ampla e profunda pesquisa que descreva referências e construção da ideia final. Nos reunimos, exibimos a pesquisa, defendemos o conteúdo e o grupo avalia pontos fortes e fracos. A partir disso, podemos fortalecer o trabalho de exploração teórica e aplicar mudanças no produto.

Também temos aulas de comunicação e marketing, design e “work experience”- todas aulas teóricas que tem por intenção profissionalizar as técnicas aprendidas.

Aos poucos, irei compartilhar mais um pouco dos trabalhos que ando realizando por aqui. Por enquanto, tenho focado em aprender e explorar até encontrar qual será meu caminho dentro dessa experiência tão rica.

Aos amigos que já trabalham com Craft: estou chegando e adoro papear.

 

YES EQUALITY

“Fé é dar o primeiro passo e esperar que Deus coloque o chão”, me disse poucos minutos após me conhecer, a tradutora Juliana de Castro.

Assim como eu, ela estava a caminho da primeira reunião de brasileiros que residem em Dublin, na intenção de fazer uma cobertura jornalística independente sobre o referendo irlandês.  Pela primeira vez na história, decidia-se sobre a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo através do voto popular.

A frase dela ecoava na minha cabeça enquanto eu observava aquele grupo de onze pessoas, tentando se acomodar em torno de uma mesa em uma casa de chá no centro da cidade. Foi uma causa que nos uniu, e a gente não fazia ideia da onde isso ia dar.

Não demorou para que o garçom aparecesse e nos questionasse “Everybody here speaks portuguese?”, um sonoro “yes”, e a tréplica “então vou atendê-los em português”. Risadas de alívio e Jorge Aragão na trilha sonora. Estávamos em casa.

O encontro inicial tinha por intenção discutir possíveis abordagens e dividir tarefas. Tínhamos um grande grupo, é certo, mas pouco tempo. Todas as tecnologias foram favoráveis: criamos um grupo no Whatsapp, compartilhamos conteúdo via e-mail e disponibilizamos material no Dropbox. Uma fanpage no Facebook e uma conta no Instagram foram criadas também, para quem quisesse acompanhar o trabalho em rede.

No dia da votação, nos espalhamos pela cidade, em horários diferentes, para registrar o movimento. Acompanhei o jornalista Wenner Tito e o fotógrafo Márcio Lourenço em entrevista ao pastor Samuel Mawhinney, da Igreja Presbiteriana, que gentilmente nos contou sobre o posicionamento religioso.

A Irlanda, um dos países mais conservadores da Europa e de maioria católica poderia agora mostrar que o direito civil caminha independente da fé. Perguntei à Mawhinney se ele acreditava que as últimas declarações do papa Francisco poderiam influenciar na tomada de decisão do povo irlandês e ele me garantiu que sim, ressaltando que acreditava que o novo posicionamento da Igreja Católica devia-se a sua gradual perda de fiéis nos últimos anos.

No pátio do Dublin Castle, cenário histórico da Independência Irlandesa, um telão foi montado com a apuração das urnas em tempo real. A cada vitória local do sim, gays, lésbicas, travestis, héteros e inclassificáveis se uniam em um só aplauso. Era um sábado ensolarado e eu repetia o discurso que ouvi de uma mãe que era a favor do sim, diante do principal argumento de quem era contra, alegando que a união prejudicaria a educação das crianças.

“Eu voto sim, porque meus filhos são pequenos e não sei se amanhã eles terão vontade de casar. Se tiverem e for com alguém do mesmo sexo, quero que tenham esse direito. Se não, quero que meus netos tenham esse direito, se assim quiserem. Eu não preciso ser gay para ser a favor do ser humano e ser a favor de uma sociedade mais amorosa” – disse a moça que jamais saberei o nome, mas que me marcou, por resumir em palavras o que eu estava sentindo.

No meu celular, imagens em preto e branco registradas pelo novo amigo Pedro Machado, deixaram o momento ainda mais poético. No palco, a drag queen Panti levantava a placa “equal” enquanto era ovacionada pelo povo que aguardava o resultado oficial.

A vitória do sim somou 62% dos votos. O mundo inteiro ganhou com essa decisão que partiu daqui. A começar pelos brasileiros do coletivo que formamos, Equality Brazil: foi assim que nos conhecemos, descobrimos histórias, trocamos ideias, aprendemos e, enfim, crescemos mais um pouco. Com tudo isso, é claro que o resultado não poderia ter saído mais bacana, dá só uma olhada.

Por fim, quero agradecer a coragem do jornalista Junior Milério, que foi o primeiro a dar a cara à tapa e convidar outros jornalistas para esse projeto. Sem ele, nada disso teria sido possível e essa teria sido só mais uma notícia em nossos jornais.

Fotos de Pedro Machado

Cinema à distância/Golpe Duplo

Porque somos descolados e moderninhos, temos canal no youtube e tudo. No primeiro vídeo do Circo Dourado, eu e Bia falamos sobre cinema (mais precisamente sobre o filme Golpe Duplo). A brincadeira ficou divertida e a gente quer que você brinque junto! Assista ao vídeo, entenda como funciona o cinema à distância e embarca:

St. Patrick’s day 2015

St. Patrick foi o grande responsável por trazer o catolicismo para a Irlanda, país composto por maioria pertencente à religião. Ele também expulsou todas as cobras da ilha. Foi através do trevo da sorte de apenas três folhas, que ensinou a importância da Santíssima Trindade. Mas se engana quem pensa que essa é essencialmente uma festa religiosa. A Irlanda tinge o mundo de verde nesse dia, para contar a sua história.

É claro que tem Guinness, turistas de todo o mundo, música e muita bagunça. Mas tudo começa com um grande desfile, em que o país celebra outros países que influenciaram a cultura irlandesa, além da própria cultura.

Tive a honra de ir com uma família de amigos irlandeses que além de estarem super orgulhosos de poder mostrar um pouco da história para mim, souberam achar o lugar perfeito para assistirmos tudo de perto.

Antes de começar, apresentadores brincam com a platéia, fazendo perguntas sobre a história da Irlanda. Dão preferência para a resposta das crianças (não são poucas, o país tem a mais alta taxa de natalidade da Europa), que vibram quando acertam e ganham doces ou revistas de colorir como prêmio.

Em seguida, chamam três irmãos de, no máximo, 12 anos de idade, para dar uma canja tocando e dançando músicas tradicionais. A platéia aplaude em pé.

E então o desfile começa, com bandeiras das Nações que serão ali representadas.

A primeira marcha é escocesa. Há também o desfile da marcha tradicional alemã. Até o México participa. Mas, a grande maioria das fanfarras é mesmo americana. Muitos jovens participantes são netos de irlandeses.

Logo a história começa, retratando uma Irlanda pobre e sofrida, porém alegre em seu povo. Os valores também são ressaltados em placas que dizem “Do Ministério da Paz e do Amor – Descarte seus preconceitos aqui” e “Do Ministério da Paz e do Amor – boas vibrações para a alma”.

Os doces, a música, a tecnologia, o investimento na medicina e indústria farmacêutica também aparecem; seguidos por um dos carros que retrata o assunto mais presente no cotidiano de quem mora por aqui: o tempo. O rei Sol, esperado o ano todo e a pele clara sofrendo com a vermelhidão das queimaduras arrancou risadas (e no meu caso, identificação). O carrossel de nuvens e arco-íris lembra quão instável é o clima.

As florestas e a vida selvagem também são homenageadas, assim como a pureza das águas que banham o país.

Uma das atrações que mais gostei foram as bonecas gigantes que cantam ao vivo. E, logo depois, um dos últimos blocos representou a magia irlandesa com fadas e elfos dançarinos, em sua maioria crianças.

O bloco final foi composto por moradores que aproveitaram a data para incentivar os cidadãos a usarem cada vez mais suas bicicletas.

Assim como nas placas, que são todas escritas em inglês e em gaélico, a narração do desfile também considerou a língua irlandesa em alguns momentos.

Ao final, a multidão pulverizou pela cidade e eu fui garantir o meu espaço em um pub no Temple Bar.

É claro que tem muita gente que bebe bastante e para não estragar o meu dia, segui o conselho dos amigos irlandeses: saí antes de escurecer. Deu tempo de ver muitos adolescentes queimando a largada. Mas nada estraga a beleza ver crianças, jovens e senhores celebrando com orgulho a própria história e reconhecendo a influência de outras culturas, com alegria.

Deu tempo de pensar com dor no momento político em que estamos vivendo no Brasil. Deu tempo de ser grata à Irlanda por receber a todos, tão despida de preconceitos (e por me ensinar isso dançando). Deu tempo de ter esperança de que um dia a gente se receba como recebemos aos estrangeiros em nosso próprio país.

Slàinte! Cheers, folks!

Museum of Modern Art Ireland

O Museum of Modern Art Ireland (IMMA) era um dos museus de Dublin que eu mais tinha curiosidade de conhecer e acabou sendo um dos últimos, devido à localização.

Mas no último final de semana me organizei para a missão e, qual não foi minha surpresa, ao me deparar com um suntuoso prédio do século 17, que já foi a casa de inúmeros soldados aposentados no antigo Royal Hospital Kilmainham.

É nesse cenário que me encontrei com as produções dos irlandeses Duncan Campbell,  Gordon Lambert e da inglesa Linder Sterling – essa última, exibe suas obras que já rodaram o mundo questionando a sexualização da mulher. Sterling já é bem conhecida pelo posicionamento feminista, mas não inova, limitando corpos nús relacionados a objetos e ao prazer carnal. Deixa influências políticas e religiosas (entre tantas outras) de fora do problema social, fazendo com que a mídia e o homem sejam os únicos pontos focais. De novo. Ou vai dizer que você nunca viu obras, posicionamento e abordagem bem semelhantes?

Mas é claro que o painel luminoso com os dizeres “Anatomy is not destiny” resgatou meu relacionamento com a artista durante a exposição e me fez feliz ao pensar sobre a afirmação.

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Já Campbell não decepciona e documenta fatos curiosos, como em “Make it New John”.

O passeio pelo IMMA vale a tarde sem pressa, com direito à passeio pelo parque que cerca o prédio e café no porão histórico. Como na grande maioria dos museus irlandeses, a entrada é gratuita.