YES EQUALITY

“Fé é dar o primeiro passo e esperar que Deus coloque o chão”, me disse poucos minutos após me conhecer, a tradutora Juliana de Castro.

Assim como eu, ela estava a caminho da primeira reunião de brasileiros que residem em Dublin, na intenção de fazer uma cobertura jornalística independente sobre o referendo irlandês.  Pela primeira vez na história, decidia-se sobre a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo através do voto popular.

A frase dela ecoava na minha cabeça enquanto eu observava aquele grupo de onze pessoas, tentando se acomodar em torno de uma mesa em uma casa de chá no centro da cidade. Foi uma causa que nos uniu, e a gente não fazia ideia da onde isso ia dar.

Não demorou para que o garçom aparecesse e nos questionasse “Everybody here speaks portuguese?”, um sonoro “yes”, e a tréplica “então vou atendê-los em português”. Risadas de alívio e Jorge Aragão na trilha sonora. Estávamos em casa.

O encontro inicial tinha por intenção discutir possíveis abordagens e dividir tarefas. Tínhamos um grande grupo, é certo, mas pouco tempo. Todas as tecnologias foram favoráveis: criamos um grupo no Whatsapp, compartilhamos conteúdo via e-mail e disponibilizamos material no Dropbox. Uma fanpage no Facebook e uma conta no Instagram foram criadas também, para quem quisesse acompanhar o trabalho em rede.

No dia da votação, nos espalhamos pela cidade, em horários diferentes, para registrar o movimento. Acompanhei o jornalista Wenner Tito e o fotógrafo Márcio Lourenço em entrevista ao pastor Samuel Mawhinney, da Igreja Presbiteriana, que gentilmente nos contou sobre o posicionamento religioso.

A Irlanda, um dos países mais conservadores da Europa e de maioria católica poderia agora mostrar que o direito civil caminha independente da fé. Perguntei à Mawhinney se ele acreditava que as últimas declarações do papa Francisco poderiam influenciar na tomada de decisão do povo irlandês e ele me garantiu que sim, ressaltando que acreditava que o novo posicionamento da Igreja Católica devia-se a sua gradual perda de fiéis nos últimos anos.

No pátio do Dublin Castle, cenário histórico da Independência Irlandesa, um telão foi montado com a apuração das urnas em tempo real. A cada vitória local do sim, gays, lésbicas, travestis, héteros e inclassificáveis se uniam em um só aplauso. Era um sábado ensolarado e eu repetia o discurso que ouvi de uma mãe que era a favor do sim, diante do principal argumento de quem era contra, alegando que a união prejudicaria a educação das crianças.

“Eu voto sim, porque meus filhos são pequenos e não sei se amanhã eles terão vontade de casar. Se tiverem e for com alguém do mesmo sexo, quero que tenham esse direito. Se não, quero que meus netos tenham esse direito, se assim quiserem. Eu não preciso ser gay para ser a favor do ser humano e ser a favor de uma sociedade mais amorosa” – disse a moça que jamais saberei o nome, mas que me marcou, por resumir em palavras o que eu estava sentindo.

No meu celular, imagens em preto e branco registradas pelo novo amigo Pedro Machado, deixaram o momento ainda mais poético. No palco, a drag queen Panti levantava a placa “equal” enquanto era ovacionada pelo povo que aguardava o resultado oficial.

A vitória do sim somou 62% dos votos. O mundo inteiro ganhou com essa decisão que partiu daqui. A começar pelos brasileiros do coletivo que formamos, Equality Brazil: foi assim que nos conhecemos, descobrimos histórias, trocamos ideias, aprendemos e, enfim, crescemos mais um pouco. Com tudo isso, é claro que o resultado não poderia ter saído mais bacana, dá só uma olhada.

Por fim, quero agradecer a coragem do jornalista Junior Milério, que foi o primeiro a dar a cara à tapa e convidar outros jornalistas para esse projeto. Sem ele, nada disso teria sido possível e essa teria sido só mais uma notícia em nossos jornais.

Fotos de Pedro Machado

Museum of Modern Art Ireland

O Museum of Modern Art Ireland (IMMA) era um dos museus de Dublin que eu mais tinha curiosidade de conhecer e acabou sendo um dos últimos, devido à localização.

Mas no último final de semana me organizei para a missão e, qual não foi minha surpresa, ao me deparar com um suntuoso prédio do século 17, que já foi a casa de inúmeros soldados aposentados no antigo Royal Hospital Kilmainham.

É nesse cenário que me encontrei com as produções dos irlandeses Duncan Campbell,  Gordon Lambert e da inglesa Linder Sterling – essa última, exibe suas obras que já rodaram o mundo questionando a sexualização da mulher. Sterling já é bem conhecida pelo posicionamento feminista, mas não inova, limitando corpos nús relacionados a objetos e ao prazer carnal. Deixa influências políticas e religiosas (entre tantas outras) de fora do problema social, fazendo com que a mídia e o homem sejam os únicos pontos focais. De novo. Ou vai dizer que você nunca viu obras, posicionamento e abordagem bem semelhantes?

Mas é claro que o painel luminoso com os dizeres “Anatomy is not destiny” resgatou meu relacionamento com a artista durante a exposição e me fez feliz ao pensar sobre a afirmação.

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Já Campbell não decepciona e documenta fatos curiosos, como em “Make it New John”.

O passeio pelo IMMA vale a tarde sem pressa, com direito à passeio pelo parque que cerca o prédio e café no porão histórico. Como na grande maioria dos museus irlandeses, a entrada é gratuita.