4 Casas de Show para ir em família

Há algum tempo acompanho com curiosidade a movimentação das casas de show para atrair as famílias em São Paulo.

A curadoria quase sempre acerta, e traz bandas de repertório infantil com excelentes músicos. A grande dificuldade é tornar um ambiente tão acostumado ao público adulto em um lugar mais acolhedor, flexível e seguro para bebês e crianças.

Hoje vou contar quatro experiências que tive, com minha filha de três anos e meio.

  1. Casa Natura Musical

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Imagem:Rafa Von Zuben/Veja SP

No ano passado estive em um show do grupo Palavra Cantada na Casa Natura. A começar pelo cardápio, que não possuía muitas opções para as crianças além da pipoca (que é claro, tinha um preço bem salgado), o espaço, em si, não colaborava: mesas compartilhadas de até quatro cadeiras se apertavam tanto entre elas, que não sobrava espaço para se movimentar.

As crianças tiveram que passar o show inteiro nas cadeiras ou, aquelas mais saidinhas que já dançavam próximas ao palco, levavam consigo adultos preocupados com a segurança do caminho entre o palco e a mesa e esses, quase sempre, ficavam tapando a visão dos demais que estavam sentados.

Pouco tempo depois, retornei ao local, dessa vez para assistir à Orquestra Modesta – e com minha filha um pouco mais velha, tive que passar o show agachada ao lado do palco, para garantir que ela se divertisse e não colocasse as mãozinhas em nenhum dos inúmeros fios acessíveis pelo chão do palco ou os ouvidos nas caixas de som das laterais.

Voltaria a esse lugar? Não. Mas foi bom conhecer.

2) Bona café

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Não muito distante da Casa Natura Musical, fica o Bona Café – uma casa de música super intimista e graciosa. Me animei quando lançaram o projeto Bona em Família aos domingos e garanti minha entrada para o show da Banda Mirim.

O espaço ficou pequeno para as trupes familiares que se formaram, e acabei em uma mesa alta, equilibrando minha filha em um banco um pouco perigoso para a idade dela. A sorte é que o espaço em frente ao palco ficou reservado para as crianças e, por ser uma casa pequena, pude observar minha filha da mesa em que estava sentada, sem precisar auxiliar de perto.

Ao final do show a casa se mostrou um pouco despreparada para o fluxo de famílias que queriam ficar para almoçar, e a organização das mesas deixou confusa a prioridade dos lugares. Isso passado, o cardápio não tinha opções para as crianças, nem cadeirões suficientes.

Para melhorar, uma funcionária do próprio Bona olhava com reprovação as crianças que não ficavam sentadas à mesa, e censurou aquelas que subiram ao palco, já vazio e sem perigos (tanto para as crianças quanto para a integridade do espaço). Honestamente a atitude me surpreendeu bastante me fez pensar se esses espaços de fato possuem uma cultura interna pronta para receber famílias, mais do que apenas receber bandas infantis de renome.

Destaco aqui que não havia nenhuma criança com comportamento perturbador, muito pelo contrário, brincavam em harmonia enquanto as famílias, em um sentimento muito coletivo, cuidavam de todos ali.

Voltaria a esse lugar? Não. Para não correr risco de colocar minha filha em situação de constrangimento desnecessário.

3) Casa de Francisca

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A Casa de Francisca não promove o conceito de “dia de música boa em família”, mas possui almoços com bandas adequadas ao público infantil.

Curiosamente é uma das casas mais preparadas para receber crianças, já que possui algumas opções de pratos infantis (deliciosos!) e espaço para que as crianças dancem livremente.

Com uma equipe de funcionários preparados, que além de esbanjar simpatia, tratam cada criança com o respeito de um cliente adulto, me sinto segura para dizer que a experiência de show foi muito mais completa e agradável.

Fui ao show da Pequena Orquestra Interativa, a Poin, e foi bem bonito ver as crianças interagindo com os músicos e os instrumentos de perto, debaixo de uma concha acústica incrível.

Voltaria a esse lugar? Sim. Para shows adultos ou não, todos nos sentimos bem, seguros e acolhidos.

4) Blue Note

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Ontem tive a honra e o prazer de ir ao meu primeiro show do projeto “Blue Note em família” com a palhaça Rubra.

Localizado no segundo andar do Conjunto Nacional, o Blue Note é conhecido internacionalmente pela excelente curadoria de músicos, em especial nos estilos de Blues e Jazz. Um clássico da boa música que, por si só, já torna o passeio bem diferente para os pequenos. Liz, assim que entrou, soltou “Uaaau, mamãe…esse lugar é lindo!”

Era a minha terceira vez no espaço, primeira com criança, e quando chegamos já foi possível notar que um grande tapete de EVA foi montado para receber o mini público e uma profissional de monitoria infantil ( alô Trupe Borboletras, nós adoramos!) ficou responsável pela diversão até o show começar.

O cardápio preparado especialmente para o projeto, era também um papel para pintar e pequenos vasos com giz de cera coloridos foram espalhados pelas mesas.

Com um quadro de funcionários atenciosos e super animados, nos divertimos bastante. Vale lembrar que em muitas dessas Casas de show os palcos são baixos e os fios acabam ficando na altura de mãos curiosas. No Blue Note não foi diferente, mas Rubra chamou atenção para a régua de energia e a tirou do alcance das crianças que dançavam rente ao palco. Os pais também passaram a dar mais atenção aos cuidados diante do palco e pelo menos duas vezes vi funcionários abaixados, guiando as crianças para se divertir em segurança.

A localização e o dia também complementam o passeio familiar para quem gosta de dar uma volta pela Livraria Cultura, localizada no térreo, ou curtir a Paulista livre para pedestres.

Voltaria a esse lugar? Oui. Sim. Yes. Sí. Com toda certeza.

 

 

Sexta-poesia

Toda sexta-feira, ofereço poemas, poesias, crônicas ou uma pequena dose literária para resgatar nossa alma de tanta realidade. Hoje é a vez de Manuel António Pina, em sua crônica publicada no Jornal de Notícias.

Onde se fala de gatos e de homens

Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.

Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida colectiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.

E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.

Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 09/11/2005

Viva o palhaço brasileiro!

“Estou aqui para contar o que lembro e para lembrar que todo artista é um homem. E que todo ser humano é um tolo. E talvez nessa tolice esteja nossa salvação”

Peppe, em Pagliacci – Cia. La Mínima

Nem a faculdade. Nem a maternidade. Nem o intercâmbio. Nem todos os livros e documentários. Nada me preparou melhor para a vida, quanto minha paixão pelo arquétipo do palhaço.

É a arte, acima de qualquer religião, que me ensinou o que é vida eterna. E o palhaço, o que é vida.

Mas, e quando um palhaço sai de cena?

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5 mudanças inúteis

Se eu fosse uma super heroína capaz apenas de fazer mudanças inúteis no mundo, já sei por onde começaria:

1) Cheiro de café teria gosto de chocolate.

2) No Brasil teria Aurora Boreal.

3) Choveria só de madrugada.

4) Asfalto teria cheiro de mato molhado.

5) A gente seria despertado todos os domingos pelo cheiro de pão quentinho.

No mais, tudo pode correr normalmente.

obs. Na imagem, a super heroína muçulmana Kamala Khan que lidera debates culturais e religiosos, além das inseguranças da adolescência, através dos quadrinhos. Criada por Sana Amanat e Steve Wacker, a personagem tenta combater esteriótipos e preconceitos, retratando a vida da jovem americana filha de imigrantes paquistaneses.

(via: artinspirationsite.com)

Para Liz, com amor

Tem gente que faz retiros em meio a montanha e fica por dias em silêncio. Tem aqueles que buscam a floresta para experimentar o chá de Ayahuasca. Tem também os que percorrem todo o caminho de Santiago de Compostela. Há ainda quem acorde cedo e medite, diariamente.
Eu gerei uma vida e pari. Foi assim que enfrentei meus demônios, dizimei meus medos. Mês a mês, meu corpo me transformou. Chorei. Amei. Abri mão. Agradeci.
Eu me senti sozinha. Eu engordei e me vi bonita. Eu repensei meus preconceitos para não te levar a caminhos que não foram suas escolhas, filha. Você rompeu meus dias de silêncio e dançamos por horas, celebrando a chegada de sua chegada.
Era a primeira manhã de neve quando sentimos a mesma dor, juntas. Gritamos e espantamos todas as bruxas. Ficamos só nós, anjos e fadas. Conosco ninguém podosco, madame.
Nos colocamos em um mesmo espaço, nos encaramos face a face por madrugadas a dentro. E de repente um clarão: eu, que já fiquei acordada tantas noites por medo de prova da escola, por trabalhar demais, por levar um pé na bunda…te agradeço por tirar o meu sono, com toda nobreza de causa.

Filha, é uma delícia me encontrar no seu berço. Te encontrar nos meus braços.

Que nosso cordão seja infindo. Amém.

Obs. Você nasceu, mas nunca sairá de dentro de mim. Não esquece.

Fundação Ideia de Jerico

Por favor, olhe para os lados antes de começar a ler esse post: contarei um segredo. Fica cá, só entre nós.

O que eu tenho a dizer é íntimo, e devo admitir, não tão simples de explicar. O que passa se começou na adolescência, quando minha mãe me apresentou mulheres lindas e fortes como exemplo.

No auge da sensação patinho feio, conhecer mulheres livres, inteligentes, engraçadas, quebrando padrões, foi, e ainda é, um alento sem tamanho.

A essa altura você pode estar se perguntando se eu revelarei alguma preferência sexual, mas adianto que não é sobre isso o que digo. Alíás,  adorava quando essa pauta vinha à tona no Saia Justa e Mônica Waldvogel, Rita Lee, Marisa Orth e Fernanda Young gargalhavam dos cafonas que habitam o mundo.

Fernanda Young e Rita Lee me encantavam com o humor ácido e questionamentos profundos. Juntas, escreveram o Hino dos Malucos – e eu me senti representada.

Elas não sabiam, mas eram minhas melhores amigas. Então eu ouvia as músicas, lia os livros, assistia as séries. Sei falas completas de “Os Aspones” e “Os Normais” até hoje.

Eis que então vejo no Instagram um espaço de artes chamando para um encontro com Fernanda Young. Os dizeres eram confusos – falava sobre Fernanda ler um texto de Drummond, e no mesmo dia e local, dar espaço para que os participantes produzissem qualquer coisa a partir daquela leitura. Se você procurasse letras pequenas para entender “como assim qualquer coisa” ou “quem pode produzir isso que eles esperam Meu Deus”, encontraria apenas as palavras “anarquista” e “iconoclasta”.

Esse encontro daria início à Fundação Ideia de Jerico, em que ganharíamos carteirinhas e diplomas.

Achei que não era o tipo de coisa que a gente precisasse entender. Fui.

O que aconteceu naquele dia, até hoje, eu não saberia dizer se foi mesmo real. Poucas pessoas reunidas, silêncio e atenção. Muitos sorrisos e muito acolhimento. Uma imersão em palavras da línguas portuguesa e, o mais importante…uma pequena e silenciosa revolução. A arte nascendo, vagarosa e forte, pronta para iluminar tempos sombrios.

Saímos de lá ansiosos  pelo próximo encontro, dali um mês. Encontro esse, que você já deve saber, não aconteceu. Chorei por uma semana. Tentei recordar todas as frases que consegui dizer a tempo, quais eu tinha deixado para a próxima. Senti tudo aquilo que devemos sentir diante da morte: desde a vontade imensa de fazer acontecer tudo o que adiamos, até a total falta de senso humano em não aceitar de jeito nenhum, mesmo sabendo que nossa indignação não muda nada.

Fiz então, o que qualquer luto faz por nós – passei a acompanhar todos que viviam o mesmo que eu. Fiquei pensando em todos aqueles que viam sinais dela por todos os cantos e achei lindo essa ressignificação do caos.

Voltei milhões de vezes ao dia em que nos conhecemos, e lembrei da minha sensação de “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”.

MÁ QUE CARALHA QUE TIRARAM A MESTRE DAQUI, AGORA QUE EU ACHEI.

Chorei de novo e de novo e mais uma vez. Resolvi que ia transformar dor em palavras, mas travei. Então recebi um e-mail dizendo que meu blog tinha um novo comentário, e eu nem sabia que tinha um blog. Era esse, o Circo Dourado – eu achei que tinha perdido todo o conteúdo há três anos. Mas estava lá, intacto. Foi tanta alegria, que olhei para o calendário pra gravar esse dia de reencontro comigo mesma. Era 25 de setembro. O luto completava um mês.

Obrigada pelo sinal Fernanda, eu sabia que éramos amigas.

 

 

7 dias fora do Facebook

De tempos em tempos redesenho objetivos e estratégias para trazer novas coisas para a minha vida. É um encerrar ciclos para abrir espaços super consciente.

Um dos meus novos objetivos de vida ( depois de ter lido Tim Ferriss) era separar meu acesso à internet em turnos.

Exemplo: de segunda à sexta-feira acessar por uma hora pelas manhãs, no horário do almoço e uma hora ao final da tarde. Sábados e domingos sem restrições, guiada pelo bom senso.

E as coisas estavam difíceis, mas no meio do caminho tive que viajar. Durante as viagens é muito comum que os turnos sejam naturalmente aderidos, já que na maioria das vezes eu fico sem acesso à internet e só checo atualizações quando paro para descansar e encontro um wifi me esperando.

Foi em uma dessas conexões que encontrei esse texto aqui, que contava em detalhes sobre uma semana fora do Facebook. Era o que eu precisava, o empurrãozinho final.

Estava decidido. Voltei para casa e desativei a minha conta por 7 dias. Aumentei o som e fui reler meu planejamento de coisas que eu queria fazer.

O que mudou nessa semana?

1) Revistas

Eu já estava lendo um livro super incrível, mas não encontrava hora para por em dia a leitura das inúmeras revistas que eu saio comprando por onde eu passo (é vício, eu sei). Sem vida dos outros para ler, fui me preocupar com a minha…e foi ótimo!

2) Sem ansiedade

Fui ouvir meu som na academia e nenhuma notificação atrapalhou minha concentração. Fiz meu exercício e saí leve e despreocupada, sem absolutamente NENHUMA mensagem para ver/ compartilhar ou responder. Foi tão bom que estendi o passeio para um descanso no gramado.

3) Distância

A minha maior preocupação era em relação ao grupo que tinha no Facebook com a minha família. Como estou distante, esse contato é indispensável. Refiz o grupo no Whatsapp e não é que agora a gente compartilha áudio e muito mais fotos (cotidianas) nossas? Isso me fez sentir mais próxima.

4) Amigos de verdade

Eu não deixei de falar com meus amigos. Só que eu mantive contato com aqueles que realmente me importam e se importam comigo também. Nada de justificativas pela minha decisão, com mais tempo sem logar trocamos mais mensagens pessoais e até fizemos ligações para falar da vida. E olha que incrível: a vida de todo mundo tem lado ruim, e nem por isso somos loucos revoltados, minha gente…quase tinha esquecido.

5) Alienação

Em casa não usamos TV. Não recebo jornal. O que significa que a internet é a minha fonte de informação. O Facebook vomita  diz tudo o que eu preciso saber sem esforço algum. Mas para ter informações relevantes eu tenho que ler TANTA groselha que…epa, péra, o Twitter não tem nada disso. E foi assim que eu voltei para o Twitter, essa maravilhosa rede de interesses.

“Facebook: faz você odiar pessoas que você realmente conhece. Twitter: faz você amar pessoas que você nem conhece”

Coincidência ou percepção seletiva, durante minha semana produtiva fora do Facebook, li essa matéria que fala sobre o crescimento de hotéis de luxo nos Estados Unidos que passaram a oferecem “Detox Digital”.

(luxo é ter internet, gente…péra lá…)

Bem, a minha semana fora do Facebook terminou hoje e eu só senti falta de estar logada quando precisei de grupos que falam sobre a região que eu moro. Nada de outro mundo, sobrevivi fazendo minhas próprias buscas.

No celular o aplicativo permanecerá deletado, em seu lugar instalei o Kobo e estou botando fé que me acostumarei a ler nessa tela.

O saldo foi bem positivo e acho que daqui pra frente acessarei apenas nos dias em que postar aqui, para atualizar a Fan Page. \o/

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Arts and Craft Design

A falta de atualização por aqui tem alguns motivos felizes. Um deles é o curso de Arts and Craft Design que estou fazendo em tempo integral aqui na Irlanda.

Quando vim para cá, decidi que gostaria de explorar melhor coisas que sempre me interessaram mas que eu ainda não tinha parado para me dedicar. Com a rotina corrida e estressante de São Paulo, diversas vezes eu me peguei com o olhar perdido em uma cozinha minúscula de escritório, pensando como seria bom me conhecer melhor e me permitir ter novas experiências. Mas o café que me sustentaria até o final da tarde logo acabava e eu teria que entrar em uma outra reunião.

Eu não tinha a pretensão de viver viajando enquanto fazia home office pelo mundo. Eu só achava que a vida é muito longa para gastarmos com uma única profissão. Uma única especialidade. Fechando as portas para qualquer outro talento que você possa a vir desenvolver mesmo se, no final das contas, ele não lhe render o mesmo dinheiro que você já conquistou.

 E se eu fosse uma excelente cozinheira? E se de repente eu sou uma ótima ilustradora? Vai que eu me dou super bem em artes circenses…

Eu precisava me dar a chance de aprender coisas que sempre gostei. E foi assim que fiz meu primeiro curso de Design de Jóias. Meses depois, ao fim do curso, eu já estava na terceira entrevista do processo seletivo para estudar Arts and Craft Design, sem saber ao certo o que me esperava.

Passados os meses de descobertas e adaptações, agora já sei trabalhar com estampas, esculturas, bordado, corte e costura, feltragem artesanal (molhada e seca), stencil, ilustração, tintas, lãs, linhas e crochê. Participei de workshops com especialistas em Patchwork tradicional e modelagem e bordado em materiais solúveis. No final do ano, passamos uma semana juntos fazendo velas e sabonetes artesanais como presentes de Natal para relaxar um pouco.

Foram meses de dedicação e já faço apliques, bolsas, almofadas, bonecos e esculturas. Misturo técnicas. Tenho uma nova turma de amigas que, por termos interesses em comum, tornam as conversas e trocas de experiências ainda mais deliciosas. Elas me ensinam muito sobre a cultura irlandesa e eu busco trazer muito do Brasil para meus trabalhos também.

E apesar de muitas aulas serem práticas, todo trabalho passa por uma avaliação teórica. Isso significa que é necessário fundamentar cada peça apresentada em uma ampla e profunda pesquisa que descreva referências e construção da ideia final. Nos reunimos, exibimos a pesquisa, defendemos o conteúdo e o grupo avalia pontos fortes e fracos. A partir disso, podemos fortalecer o trabalho de exploração teórica e aplicar mudanças no produto.

Também temos aulas de comunicação e marketing, design e “work experience”- todas aulas teóricas que tem por intenção profissionalizar as técnicas aprendidas.

Aos poucos, irei compartilhar mais um pouco dos trabalhos que ando realizando por aqui. Por enquanto, tenho focado em aprender e explorar até encontrar qual será meu caminho dentro dessa experiência tão rica.

Aos amigos que já trabalham com Craft: estou chegando e adoro papear.

 

Como realizo meus sonhos

Depois que minhas amigas souberam como me organizei para realizar alguns objetivos, elas passaram a fazer o mesmo e compartilhar comigo cada sucesso. Eu achei legal que não dava certo só para mim. Então decidi publicar aqui, para que corra o risco de ser útil para mais pessoas.

Começou assim: teve uma época da minha vida que eu trabalhava o dia todo, fazia MBA relacionado ao trabalho, jantava planejando reuniões…enfim, vivia a ilusão de que não tinha tempo para mais nada. Principalmente se fosse um projeto pessoal.

Ter que começar do zero? Que preguiça!

Pois é. Mas se a preguiça vira cúmplice da falta de atitude, você acaba assinando contrato com a infelicidade. E ela chega sorrateira, minando cada detalhe.

CHEGA!

A minha decisão de cortar o mal pela raiz trouxe incômodo e dor, claro. Foi preciso coragem para encerrar pontos que não faziam mais sentido com o que eu queria, abrindo espaço para o novo. Mesmo não sabendo claramente o que vinha como novidade. A transição foi lenta e eu a encarei como um projeto, igualzinho aos que eu estava acostumada a administrar no meu cotidiano. Perdi muita coisa no caminho. Principalmente gente que não entendeu direito a movimentação e preferiu se afastar (hoje vejo isso como parte necessária no processo).

Claro que para eu encarar com seriedade precisava de brainstorm, metodologia, deadline e tudo o mais. Mas só dependia de mim.

Metodologia de realização

Tem um monte de metodologias de execução de projetos bem sérias e legais. Gosto bastante daquelas que se aproximam com o Design Thinking. Mas eu estava sozinha, e não me encaixava em nenhuma delas por completo.

O jeito foi adaptar a essência para a minha realidade. Escolhi um dos princípios do Dragon Dreaming e usei de um jeito bem superficial  (então não posso dizer que é a real aplicação, mas também não posso deixar de dar os créditos ao que me inspirou).

Também usei o famoso Baby Steps – que nada mais é do que tratar o caminho para a realização do projeto com base em pequenas fases. Todos objetivos foram faseados em pequenos passinhos diários, para que eu consiga entender que o sonho está se movimentando e, mesmo que demore para chegar lá, eu consiga visualizar que não estou parada.

Desenhei em uma cartolina linhas horizontais com espaços para:

SONHO

Nessa primeira parte você vai precisar de: revistas (já falei por aqui que sou viciada em revistas, né).

Peguei um monte de revistas antigas e passei a recortar TUDO o que me chamava a atenção e causava bons sentimentos. Igualzinho ao que gente fazia na adolescência offline.

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Depois interpretei as imagens que escolhi, tentando entender os motivos de me sentir bem olhando para elas. Transformei cada uma em uma meta (e chamei de sonho) e tchãram! Fiquei surpresa quando não havia NENHUM sonho inalcançável. Muito pelo contrário. Eles eram vontades pequenas que exigiam mais dedicação do que dinheiro.

Escolhi três deles para tratar como prioridade e colei na primeira parte, designada aos SONHOS.

Os outros ficaram para um segundo ciclo, que começará só depois que eu conseguir realizar o primeiro. De acordo com o seu tempo e rotina você pode se dedicar a um plano de cada vez ou tocá-los paralelamente. Eu não indicaria se comprometer a um número muito grande, pois você pode se sobrecarregar e acabar se frustrando por não conseguir realizar muita coisa.

Deixe os menos prioritários para ciclos posteriores, ok?

obs. uma playlist boa e um domingo de pijama ajudaram muito nesse momento feliz!

PLANEJAMENTO

Coloquei datas de entrega e, se envolvesse grana, o montante final. Também detalho cada fase para o objetivo final.

No meu caso, a maioria das metas não eram pontuais (exemplo: fazer um filme), mas eram novos hábitos que eu gostaria de incorporar ao meu cotidiano (exemplo: meditar diariamente).

Alguns sonhos eu decidi que o prazo de execução era mensal, outros semanais. Mas se você tiver um plano maior que envolva um planejamento mais complexo (como poupar dinheiro, estudar, etc.) eu indico fazer anual, com fases mensais de celebração.

EXECUÇÃO

O espaço mais largo, deixei aberto para post-its. Aqui anoto o próximo passo para a realização ou se rolou algum imprevisto no caminho. É importante visualizar qual passo empacou o projeto para entender como é possível contorná-lo, pensando em novas alternativas.

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Rascunho inicial de um planejamento antigo

Passos pequenos são MUITO importantes. Exemplo:

Sonho: Meditar diariamente

Planejamento: Semanal

Execução: Post-it da segunda-feira – Não consegui nem 5 minutos sozinha.

                   Post-it da terça-feira – Buscar ajuda no Youtube/ livros/ locais perto de casa

                   Post-it da quarta-feira – Achei um bom canal no Youtube e um livro bom no Kobo. Agora é assistir as aulas e comprar o livro (ou guardar dinheiro para comprar dentro de duas semanas)

                   Post-it da quinta-feira – Com a aula assistida, fiquei dois minutos meditando. Amanhã tentarei 5.

                   Post-it da sexta-feira – Consegui 5 minutos! Amanhã, rumo aos 7!  

CELEBRAÇÃO

Sim! Se você cumpriu o deadline, movimentando aos poucos para as suas realizações, você merece celebrar!

No meu caso, esse passo foi extremamente importante para me colocar disciplina, já que depois que virei ~adulta~ com meu próprio dinheiro e saí da casa dos meus pais, eu passei a achar normal me dar presente toda hora.

Qualquer stress já era boa desculpa para um chocolate, um bom restaurante, um spa…eu merecia! Mas depois do meu planejamento eu decidi que merecer não ia ser apenas questão de ter dinheiro no banco. Merecimento agora significa ter uma vida mais gentil comigo mesma. Por consequência, com tudo o que está ao meu redor.

Foi assim que celebração virou um bom vinho nas noites de sábado, no lugar de todo jantar. Se eu me exercitar todos os dias, mereço presentes fotográficos a cada semana (como sou apaixonada por lomos, há semanas em que me dou de presente a revelação de um filme, um filme novo, uma câmera baratinha, um porta-retratos…e por aí vai). Meu dinheiro deixou de me bancar produtos, passou a me dar significados de uma nova vida. E quem diria…passei a exercitar um pouquinho de consumo consciente com essa brincadeira toda, mesmo sem ser meu objetivo. 🙂

10 coisas que aprendi em Luxemburgo

Sempre senti que viajar me despertava a sensação de ser livre. Por isso, algumas viagens que faço me permito saber pouco sobre o destino para descobrir durante o tempo em que eu estiver por lá.

Claro, o básico para a sobrevivência eu sempre busco, como hospedagem e transporte. Mas deixo para me aprofundar em aspectos históricos e culturais depois. De preferência, com algum livro ou revista para ser lido durante a viagem. Acabo perdendo muito tempo por essa escolha? Talvez, mas sou adepta de Slow Trips, então…destinos que as pessoas passam geralmente menos de um dia, eu me hospedo e passo ao menos três ou quatro dias.

Foi assim com Luxemburgo. Separei aqui alguns fatos curiosos que aprendi por lá:

1) É o único Grão-ducado soberano que há no mundo

O Grão-duque é um título de nobreza superior ao duque e inferior ao príncipe. O país segue uma democracia parlamentar, liderada por uma monarquia soberana. No museu que conta a história de sua formação, há uma sala dedicada para a exposição de leis, direitos e explicações sobre a política atípica, da qual eles se orgulham.  Toda lei assegura ao cidadão um direito. Todos os direitos devem andar em linha com os valores que o país quer ter e transparecer.

A clareza de valores facilita nossas escolhas.

2) É o sétimo menor país da Europa

E uma das capitais da União Europeia (ao lado de Bruxelas e Estrasburgo).

Influência não se mensura pelo tamanho.

3) É a maior renda per-capita da Europa

E os índices de inflação são baixíssimos, assim como desemprego.

A educação faz a força.

4) É uma nação poliglota

As línguas oficiais são luxemburguês (mistura um pouco das línguas mais antigas com alemão e holandês), francês e alemão. A comunicação oficial da família real é em francês mas os jornais são em maioria impressos em alemão. Nas escolas as crianças aprendem o conteúdo em alemão durante algumas séries, em outras séries passam a ter o conteúdo em francês. Nas aulas de idioma, inglês. E agora algumas escolas já passaram a aderir ao português, já que a maior colônia de estrangeiros do país é portuguesa.

Enquanto estive lá, os luxemburgueses que identificaram minha nacionalidade por documentos, passaram a falar minha língua. Quando não eram fluentes em português, me perguntaram gentilmente em que idioma eu gostaria de conversar. Foi oferecido inglês, holandês e espanhol. Ainda assim, agradecimentos e cumprimentos foram em português.

Educação não é querer saber mais que os outros. É usar o conhecimento como ponte para  aproximação.

5) Luxemburgo é uma cidade medieval

Confesso que essa curiosidade eu já sabia, mesmo sem pesquisar muito sobre o destino. Mas já estive em outras cidades medievais e posso dizer que a geografia de Luxemburgo faz com que ela seja única. A cidade é dividida em alguns diferentes níveis (apesar da maioria das pessoas usarem apenas falar em cidade nova na parte mais alta e cidade velha na parte mais baixa), tornando as paisagens repletas de novos ângulos durante um único passeio. Prepare-se para subidas e descidas constantes. Mas se tiver preguiça, vá de elevador, o acesso é fácil e gratuito.

É bem comum também ouvir falar sobre os Casemates ( antigas muralhas, declaradas patrimônio da humanidade pela Unesco) e acredito que sim, é a melhor vista da região, para quem tem pouco tempo.

O mesmo cenário poderá sempre te surpreender, se ganhar uma nova perspectiva.

6) A família real está sempre por perto

Não importa se você está mais afastado ou perto do centro: a grande maioria das lojas em Luxemburgo colocam fotos da família real em suas vitrines. E isso inclui fotos de todos eles na sala de estar com os cachorros da família, fotos da família com alpes nevados ao fundo, uma única vitrine para a foto do Grão Duque Henrique de Luxemburgo em seu traje oficial, com o porta-retrato em cima da bandeira do país…enfim, vi até casa de cama, mesa e banho colocar um conjunto de cama que replicava a bandeira da cidade e colocava na cabeceira a foto da família real.

Ser poderoso não significa  ser benquisto. Nobreza é saber respeitar sentimentos puros e espontâneos.

7) Há pianos públicos

Sei que você vai me dizer que São Paulo também tem pianos em algumas estações de metrô. Em algumas praças de Paris também. Mas em Luxemburgo os pianos são temáticos e foram transformados em obras de arte musicais! Eles também foram espalhados por cenários da cidade que praticamente o emolduram, tornando impossível não notá-los. O primeiro que vi era em formato de girafa e foi lindo ver um senhor, com traje impecável, chegar, apoiar seu guarda-chuva e começar a tocar. Pouco tempo depois, a vendedora da loja próxima ao piano apareceu e começou a cantar, o acompanhando. Ele abriu um sorriso. Eu também.

No dia seguinte fiz uma longa caminhada pelos diferentes níveis da cidade e, ao chegar na parte mais baixa, pude ouvir o som do piano. Olhei para cima e lá estava Luxemburgo, suas muralhas medievais e seus jardins. Me senti ainda menor. Aquelas notas tornaram o momento inesquecível, então me aproximei para agradecer telepaticamente ao músico em questão. Qual não foi minha surpresa ao ver uma garotinha de, no máximo, 10 anos de idade!

A música fala esperanto. E é capaz de integrar toda uma comunidade.

8) Tem Itaú, Bradesco e Unibanco

Essa foi uma das coisas que mais me surpreendeu! Devido aos incentivos fiscais, há bancos do mundo inteiro. Alguns, com apenas dois funcionários.

Dinheiro pode trazer prosperidade quando bem aplicado. Principalmente para os próprios bancos.

9)  Um grande jardim

Todos os níveis da cidade estão repleto de jardins, parques e bosques. Pequenas hortas e plantações de ervas medicinais estão sempre presentes. As rosas, por atraírem insetos, são plantadas ao lado das parreiras, para que as uvas não sejam prejudicadas. O governo incentiva a jardinagem e promove cursos para os cidadãos.

O tempo da natureza nos ensina a paciência e nos faz valorizar o alimento posto na mesa. Com o cultivo abundante, o dinheiro deixa de ser a principal fonte de sobrevivência.

10) As crianças têm vez

Foi no caminho para o elevador público que visitei uma exposição de desenhos feitos por crianças luxemburguesas. Todos eles mostravam criações de novos produtos para a cidade. Um deles contava sobre como seria bom ter bebedouros públicos em formato de elefantes. Já outro detalhava sobre a possibilidade de usar sensores em postes e árvores para detectar quando algum lixo fosse atirado ao chão, soando um alarme e indicando a lixeira mais próxima.  Tinha também uma máquina de descascar banana, uma tubulação que levava o leite da vaca direto paras as casas e uma lente de contato com wifi. Cada desenho levava o nome do projeto, do autor e a idade.

Não subestime uma criança. Nunca. Estimule sua capacidade criativa e colha cidadãos politizados.