Sexta poesia

Toda sexta-feira, ofereço poemas, poesias, crônicas ou uma pequena dose literária para resgatar nossa alma de tanta realidade. Hoje é a vez de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Bernardo Soares, em um dos meus poemas favoritos.

Tenho dó dos pobres

Tenho dó dos pobres. E também tenho dó dos ricos. Tenho mais dó dos ricos, porque são mais infelizes. Quem é pobre pode julgar que, se deixasse de o ser, seria feliz. Quem é rico sabe que não há maneira de ser feliz.

Quem é pobre tem uma só preocupação, ou uma só preocupação principal — a pobreza. Quem é rico, como infelizmente não tem essa, tem que ter todas as outras. Nunca vi homem rico mais feliz que um pobre; a não ser que por felicidade se entenda aquilo que se pode comprar no alfaiate e no ourives, e comer-se num restaurante. Mas até este ponto de materialismo histórico não creio que vão os mesmos…

Os pobres são felizes: têm uma ilusão — crêem que o alfaiate, o ourives, o dono do restaurante caro são os dispensadores da felicidade. Crêem nisso. Os ricos são os ateus do alfaiate.

Heterônimo: Bernardo Soares

Aos pitacos maternos

Oi gente linda que me deu muitos conselhos durante a gravidez, gostaria de dizer que ouvi todos, até os inconvenientes pois sei que é nossa função social passar a chatice sem pensar, para a próxima geração achar que detemos de alguma sabedoria.

Pois bem, venho aqui, publicamente, dois anos e meio depois, para dizer com certa propriedade que aproveitei o tempo de gestação para dormir, porque depois – como fui alertada algumas vezes – não ia dar não.

Devo lembrar- lhes de que, apesar de cansaço ser cumulativo, o descanso (olha que ironia do universo) não é. Então não adiantou seguir o conselho, tá bom?

Segue o baile assim mesmo.

Obs. Imagem meramente ilustrativa, do último dia que a função materna me chamou apesar da ressaca. Bêjo.

Lógica bilíngue

Liz, Stella, Coralí e Ana. As amigas que se encontraram na Bahia tem uma coisa em comum: todas falam mais do que uma língua.

Stella é filha de mãe francesa e pai alemão, mas mora em Barcelona. Fala, portanto, francês, alemão, espanhol e está aprendendo inglês. Coralí é filha de francês e brasileira, ainda não fala muito, mas entende muito bem os dois idiomas. Ana e Liz são filhas de brasileiros que, com algum esforço, optaram pela educação bilíngue.

No que isso as torna melhor? Nada. Sem empatia, respeito e amor, nada disso vai levá-las muito longe. A língua é ferramenta.

Mas em dado momento, todas brincavam com a mesma doll. A mesma poupée. A mesma boneca. Cada uma chamava de um jeito, todas respeitavam e entendiam que sim, cada uma chama de um jeito e nenhuma delas está errada.

Foi quando eu entendi que ensinar uma outra língua é ensinar uma outra perspectiva que manda pra bem longe a lógica binária que causa tanta falta de compreensão e acolhimento no mundo.

Eu sei, tem um milhão de formas de ensinar isso, claro. Mas foi tão bonito, tão singelo e tão encantador encontrar esse caminho, que a escola da praia vai ficar guardada com a gente pra sempre.

4 Casas de Show para ir em família

Há algum tempo acompanho com curiosidade a movimentação das casas de show para atrair as famílias em São Paulo.

A curadoria quase sempre acerta, e traz bandas de repertório infantil com excelentes músicos. A grande dificuldade é tornar um ambiente tão acostumado ao público adulto em um lugar mais acolhedor, flexível e seguro para bebês e crianças.

Hoje vou contar quatro experiências que tive, com minha filha de três anos e meio.

  1. Casa Natura Musical

11

Imagem:Rafa Von Zuben/Veja SP

No ano passado estive em um show do grupo Palavra Cantada na Casa Natura. A começar pelo cardápio, que não possuía muitas opções para as crianças além da pipoca (que é claro, tinha um preço bem salgado), o espaço, em si, não colaborava: mesas compartilhadas de até quatro cadeiras se apertavam tanto entre elas, que não sobrava espaço para se movimentar.

As crianças tiveram que passar o show inteiro nas cadeiras ou, aquelas mais saidinhas que já dançavam próximas ao palco, levavam consigo adultos preocupados com a segurança do caminho entre o palco e a mesa e esses, quase sempre, ficavam tapando a visão dos demais que estavam sentados.

Pouco tempo depois, retornei ao local, dessa vez para assistir à Orquestra Modesta – e com minha filha um pouco mais velha, tive que passar o show agachada ao lado do palco, para garantir que ela se divertisse e não colocasse as mãozinhas em nenhum dos inúmeros fios acessíveis pelo chão do palco ou os ouvidos nas caixas de som das laterais.

Voltaria a esse lugar? Não. Mas foi bom conhecer.

2) Bona café

2222

Não muito distante da Casa Natura Musical, fica o Bona Café – uma casa de música super intimista e graciosa. Me animei quando lançaram o projeto Bona em Família aos domingos e garanti minha entrada para o show da Banda Mirim.

O espaço ficou pequeno para as trupes familiares que se formaram, e acabei em uma mesa alta, equilibrando minha filha em um banco um pouco perigoso para a idade dela. A sorte é que o espaço em frente ao palco ficou reservado para as crianças e, por ser uma casa pequena, pude observar minha filha da mesa em que estava sentada, sem precisar auxiliar de perto.

Ao final do show a casa se mostrou um pouco despreparada para o fluxo de famílias que queriam ficar para almoçar, e a organização das mesas deixou confusa a prioridade dos lugares. Isso passado, o cardápio não tinha opções para as crianças, nem cadeirões suficientes.

Para melhorar, uma funcionária do próprio Bona olhava com reprovação as crianças que não ficavam sentadas à mesa, e censurou aquelas que subiram ao palco, já vazio e sem perigos (tanto para as crianças quanto para a integridade do espaço). Honestamente a atitude me surpreendeu bastante me fez pensar se esses espaços de fato possuem uma cultura interna pronta para receber famílias, mais do que apenas receber bandas infantis de renome.

Destaco aqui que não havia nenhuma criança com comportamento perturbador, muito pelo contrário, brincavam em harmonia enquanto as famílias, em um sentimento muito coletivo, cuidavam de todos ali.

Voltaria a esse lugar? Não. Para não correr risco de colocar minha filha em situação de constrangimento desnecessário.

3) Casa de Francisca

333

A Casa de Francisca não promove o conceito de “dia de música boa em família”, mas possui almoços com bandas adequadas ao público infantil.

Curiosamente é uma das casas mais preparadas para receber crianças, já que possui algumas opções de pratos infantis (deliciosos!) e espaço para que as crianças dancem livremente.

Com uma equipe de funcionários preparados, que além de esbanjar simpatia, tratam cada criança com o respeito de um cliente adulto, me sinto segura para dizer que a experiência de show foi muito mais completa e agradável.

Fui ao show da Pequena Orquestra Interativa, a Poin, e foi bem bonito ver as crianças interagindo com os músicos e os instrumentos de perto, debaixo de uma concha acústica incrível.

Voltaria a esse lugar? Sim. Para shows adultos ou não, todos nos sentimos bem, seguros e acolhidos.

4) Blue Note

44

Ontem tive a honra e o prazer de ir ao meu primeiro show do projeto “Blue Note em família” com a palhaça Rubra.

Localizado no segundo andar do Conjunto Nacional, o Blue Note é conhecido internacionalmente pela excelente curadoria de músicos, em especial nos estilos de Blues e Jazz. Um clássico da boa música que, por si só, já torna o passeio bem diferente para os pequenos. Liz, assim que entrou, soltou “Uaaau, mamãe…esse lugar é lindo!”

Era a minha terceira vez no espaço, primeira com criança, e quando chegamos já foi possível notar que um grande tapete de EVA foi montado para receber o mini público e uma profissional de monitoria infantil ( alô Trupe Borboletras, nós adoramos!) ficou responsável pela diversão até o show começar.

O cardápio preparado especialmente para o projeto, era também um papel para pintar e pequenos vasos com giz de cera coloridos foram espalhados pelas mesas.

Com um quadro de funcionários atenciosos e super animados, nos divertimos bastante. Vale lembrar que em muitas dessas Casas de show os palcos são baixos e os fios acabam ficando na altura de mãos curiosas. No Blue Note não foi diferente, mas Rubra chamou atenção para a régua de energia e a tirou do alcance das crianças que dançavam rente ao palco. Os pais também passaram a dar mais atenção aos cuidados diante do palco e pelo menos duas vezes vi funcionários abaixados, guiando as crianças para se divertir em segurança.

A localização e o dia também complementam o passeio familiar para quem gosta de dar uma volta pela Livraria Cultura, localizada no térreo, ou curtir a Paulista livre para pedestres.

Voltaria a esse lugar? Oui. Sim. Yes. Sí. Com toda certeza.

 

 

Sexta-poesia

Toda sexta-feira, ofereço poemas, poesias, crônicas ou uma pequena dose literária para resgatar nossa alma de tanta realidade. Hoje é a vez de Manuel António Pina, em sua crônica publicada no Jornal de Notícias.

Onde se fala de gatos e de homens

Os meus gatos dormem durante a maior parte do dia (e, obviamente, durante a noite toda). Suspeito que os gatos têm um segredo, que conhecem uma porta para um mundo coincidente e feliz, por onde só se passa sonhando. Um mundo criado como Deus terá criado o nosso humano mundo, à sua desmesurada imagem. Porque os que sonham são deuses criadores. Os gatos sonham dormindo, os homens sonham fazendo perguntas e procurando respostas.

Mas os meus gatos dormem e sonham porque não têm fome. Teriam, se precisassem de procurar comida, tempo para sonhar? Acontece talvez assim com os homens. Como se o espírito criador fosse, afinal, prisioneiro do estômago. Talvez, então, a mesquinhez de propósitos da nossa vida colectiva radique, como nos querem fazer crer, no défice, e talvez o cumprimento das normas do pacto de estabilidade seja o único sonho que nos é hoje permitido.

E, contudo, dir-se-ia (e isto é algo que escapa aos economistas) que é o sonho, mais do que a balança de pagamentos, que alimenta a vida, e que os povos, como os homens, precisam de mais do que de números. Os próprios números têm (os economistas não o sabem porque a sua ciência dos números é uma ciência de escravos) o poder desrazoável de, não apenas repetir, mas sonhar o mundo.

Há anos que somos governados por economistas e o resultado está à vista. Talvez seja chegada a altura de ser a política (e o sonho) a dirigir a economia e não a economia a dirigir a política. Jesus Cristo «não sabia nada de finanças, / nem consta que tivesse biblioteca», e o seu sonho, no entanto, continua a mover o mundo.

Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 09/11/2005

Viva o palhaço brasileiro!

“Estou aqui para contar o que lembro e para lembrar que todo artista é um homem. E que todo ser humano é um tolo. E talvez nessa tolice esteja nossa salvação”

Peppe, em Pagliacci – Cia. La Mínima

Nem a faculdade. Nem a maternidade. Nem o intercâmbio. Nem todos os livros e documentários. Nada me preparou melhor para a vida, quanto minha paixão pelo arquétipo do palhaço.

É a arte, acima de qualquer religião, que me ensinou o que é vida eterna. E o palhaço, o que é vida.

Mas, e quando um palhaço sai de cena?

Continuar lendo “Viva o palhaço brasileiro!”

5 mudanças inúteis

Se eu fosse uma super heroína capaz apenas de fazer mudanças inúteis no mundo, já sei por onde começaria:

1) Cheiro de café teria gosto de chocolate.

2) No Brasil teria Aurora Boreal.

3) Choveria só de madrugada.

4) Asfalto teria cheiro de mato molhado.

5) A gente seria despertado todos os domingos pelo cheiro de pão quentinho.

No mais, tudo pode correr normalmente.

obs. Na imagem, a super heroína muçulmana Kamala Khan que lidera debates culturais e religiosos, além das inseguranças da adolescência, através dos quadrinhos. Criada por Sana Amanat e Steve Wacker, a personagem tenta combater esteriótipos e preconceitos, retratando a vida da jovem americana filha de imigrantes paquistaneses.

(via: artinspirationsite.com)