Você acha que eu sou eu?

A pergunta feita por Soledad era só uma entre outras questões profundas, que ela levou em seu caderno para que os amigos da escola respondessem. Frustrada com as respostas, contou a história à sua mãe.

Acontece que Soledad é filha de Valentina Fraiz, ilustradora talentosíssima, que logo convocou os próprios amigos para ajudar Soledad a entender: Por que existimos? Será que somos realmente importantes? Quem somos nós, afinal?

O resultado foi esse livro lindo, de capa brilhante, escrito e ilustrado pela própria Valentina, e publicado pela Bamboozinho.

Profundas e filosóficas, as respostas, tão boas quanto as perguntas, conseguem falar com a criança sem infantiliza-la ou exigir que ela pense como um adulto. Há também momentos bem divertidos, como uma de minhas passagens prediletas, em que os fios de cabelo de uma cabeça conversam, questionando a própria existência.

“Você acha que eu sou eu?” foi também a minha escolha como presente de dia dos professores, por ser um grande lembrete do quanto precisamos manter contato com nossa essência.

Para garantir o seu, é só clicar aqui

 

Lógica bilíngue

Liz, Stella, Coralí e Ana. As amigas que se encontraram na Bahia tem uma coisa em comum: todas falam mais do que uma língua.

Stella é filha de mãe francesa e pai alemão, mas mora em Barcelona. Fala, portanto, francês, alemão, espanhol e está aprendendo inglês. Coralí é filha de francês e brasileira, ainda não fala muito, mas entende muito bem os dois idiomas. Ana e Liz são filhas de brasileiros que, com algum esforço, optaram pela educação bilíngue.

No que isso as torna melhor? Nada. Sem empatia, respeito e amor, nada disso vai levá-las muito longe. A língua é ferramenta.

Mas em dado momento, todas brincavam com a mesma doll. A mesma poupée. A mesma boneca. Cada uma chamava de um jeito, todas respeitavam e entendiam que sim, cada uma chama de um jeito e nenhuma delas está errada.

Foi quando eu entendi que ensinar uma outra língua é ensinar uma outra perspectiva que manda pra bem longe a lógica binária que causa tanta falta de compreensão e acolhimento no mundo.

Eu sei, tem um milhão de formas de ensinar isso, claro. Mas foi tão bonito, tão singelo e tão encantador encontrar esse caminho, que a escola da praia vai ficar guardada com a gente pra sempre.

Como realizo meus sonhos

Depois que minhas amigas souberam como me organizei para realizar alguns objetivos, elas passaram a fazer o mesmo e compartilhar comigo cada sucesso. Eu achei legal que não dava certo só para mim. Então decidi publicar aqui, para que corra o risco de ser útil para mais pessoas.

Começou assim: teve uma época da minha vida que eu trabalhava o dia todo, fazia MBA relacionado ao trabalho, jantava planejando reuniões…enfim, vivia a ilusão de que não tinha tempo para mais nada. Principalmente se fosse um projeto pessoal.

Ter que começar do zero? Que preguiça!

Pois é. Mas se a preguiça vira cúmplice da falta de atitude, você acaba assinando contrato com a infelicidade. E ela chega sorrateira, minando cada detalhe.

CHEGA!

A minha decisão de cortar o mal pela raiz trouxe incômodo e dor, claro. Foi preciso coragem para encerrar pontos que não faziam mais sentido com o que eu queria, abrindo espaço para o novo. Mesmo não sabendo claramente o que vinha como novidade. A transição foi lenta e eu a encarei como um projeto, igualzinho aos que eu estava acostumada a administrar no meu cotidiano. Perdi muita coisa no caminho. Principalmente gente que não entendeu direito a movimentação e preferiu se afastar (hoje vejo isso como parte necessária no processo).

Claro que para eu encarar com seriedade precisava de brainstorm, metodologia, deadline e tudo o mais. Mas só dependia de mim.

Metodologia de realização

Tem um monte de metodologias de execução de projetos bem sérias e legais. Gosto bastante daquelas que se aproximam com o Design Thinking. Mas eu estava sozinha, e não me encaixava em nenhuma delas por completo.

O jeito foi adaptar a essência para a minha realidade. Escolhi um dos princípios do Dragon Dreaming e usei de um jeito bem superficial  (então não posso dizer que é a real aplicação, mas também não posso deixar de dar os créditos ao que me inspirou).

Também usei o famoso Baby Steps – que nada mais é do que tratar o caminho para a realização do projeto com base em pequenas fases. Todos objetivos foram faseados em pequenos passinhos diários, para que eu consiga entender que o sonho está se movimentando e, mesmo que demore para chegar lá, eu consiga visualizar que não estou parada.

Desenhei em uma cartolina linhas horizontais com espaços para:

SONHO

Nessa primeira parte você vai precisar de: revistas (já falei por aqui que sou viciada em revistas, né).

Peguei um monte de revistas antigas e passei a recortar TUDO o que me chamava a atenção e causava bons sentimentos. Igualzinho ao que gente fazia na adolescência offline.

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Depois interpretei as imagens que escolhi, tentando entender os motivos de me sentir bem olhando para elas. Transformei cada uma em uma meta (e chamei de sonho) e tchãram! Fiquei surpresa quando não havia NENHUM sonho inalcançável. Muito pelo contrário. Eles eram vontades pequenas que exigiam mais dedicação do que dinheiro.

Escolhi três deles para tratar como prioridade e colei na primeira parte, designada aos SONHOS.

Os outros ficaram para um segundo ciclo, que começará só depois que eu conseguir realizar o primeiro. De acordo com o seu tempo e rotina você pode se dedicar a um plano de cada vez ou tocá-los paralelamente. Eu não indicaria se comprometer a um número muito grande, pois você pode se sobrecarregar e acabar se frustrando por não conseguir realizar muita coisa.

Deixe os menos prioritários para ciclos posteriores, ok?

obs. uma playlist boa e um domingo de pijama ajudaram muito nesse momento feliz!

PLANEJAMENTO

Coloquei datas de entrega e, se envolvesse grana, o montante final. Também detalho cada fase para o objetivo final.

No meu caso, a maioria das metas não eram pontuais (exemplo: fazer um filme), mas eram novos hábitos que eu gostaria de incorporar ao meu cotidiano (exemplo: meditar diariamente).

Alguns sonhos eu decidi que o prazo de execução era mensal, outros semanais. Mas se você tiver um plano maior que envolva um planejamento mais complexo (como poupar dinheiro, estudar, etc.) eu indico fazer anual, com fases mensais de celebração.

EXECUÇÃO

O espaço mais largo, deixei aberto para post-its. Aqui anoto o próximo passo para a realização ou se rolou algum imprevisto no caminho. É importante visualizar qual passo empacou o projeto para entender como é possível contorná-lo, pensando em novas alternativas.

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Rascunho inicial de um planejamento antigo

Passos pequenos são MUITO importantes. Exemplo:

Sonho: Meditar diariamente

Planejamento: Semanal

Execução: Post-it da segunda-feira – Não consegui nem 5 minutos sozinha.

                   Post-it da terça-feira – Buscar ajuda no Youtube/ livros/ locais perto de casa

                   Post-it da quarta-feira – Achei um bom canal no Youtube e um livro bom no Kobo. Agora é assistir as aulas e comprar o livro (ou guardar dinheiro para comprar dentro de duas semanas)

                   Post-it da quinta-feira – Com a aula assistida, fiquei dois minutos meditando. Amanhã tentarei 5.

                   Post-it da sexta-feira – Consegui 5 minutos! Amanhã, rumo aos 7!  

CELEBRAÇÃO

Sim! Se você cumpriu o deadline, movimentando aos poucos para as suas realizações, você merece celebrar!

No meu caso, esse passo foi extremamente importante para me colocar disciplina, já que depois que virei ~adulta~ com meu próprio dinheiro e saí da casa dos meus pais, eu passei a achar normal me dar presente toda hora.

Qualquer stress já era boa desculpa para um chocolate, um bom restaurante, um spa…eu merecia! Mas depois do meu planejamento eu decidi que merecer não ia ser apenas questão de ter dinheiro no banco. Merecimento agora significa ter uma vida mais gentil comigo mesma. Por consequência, com tudo o que está ao meu redor.

Foi assim que celebração virou um bom vinho nas noites de sábado, no lugar de todo jantar. Se eu me exercitar todos os dias, mereço presentes fotográficos a cada semana (como sou apaixonada por lomos, há semanas em que me dou de presente a revelação de um filme, um filme novo, uma câmera baratinha, um porta-retratos…e por aí vai). Meu dinheiro deixou de me bancar produtos, passou a me dar significados de uma nova vida. E quem diria…passei a exercitar um pouquinho de consumo consciente com essa brincadeira toda, mesmo sem ser meu objetivo. 🙂

YES EQUALITY

“Fé é dar o primeiro passo e esperar que Deus coloque o chão”, me disse poucos minutos após me conhecer, a tradutora Juliana de Castro.

Assim como eu, ela estava a caminho da primeira reunião de brasileiros que residem em Dublin, na intenção de fazer uma cobertura jornalística independente sobre o referendo irlandês.  Pela primeira vez na história, decidia-se sobre a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo através do voto popular.

A frase dela ecoava na minha cabeça enquanto eu observava aquele grupo de onze pessoas, tentando se acomodar em torno de uma mesa em uma casa de chá no centro da cidade. Foi uma causa que nos uniu, e a gente não fazia ideia da onde isso ia dar.

Não demorou para que o garçom aparecesse e nos questionasse “Everybody here speaks portuguese?”, um sonoro “yes”, e a tréplica “então vou atendê-los em português”. Risadas de alívio e Jorge Aragão na trilha sonora. Estávamos em casa.

O encontro inicial tinha por intenção discutir possíveis abordagens e dividir tarefas. Tínhamos um grande grupo, é certo, mas pouco tempo. Todas as tecnologias foram favoráveis: criamos um grupo no Whatsapp, compartilhamos conteúdo via e-mail e disponibilizamos material no Dropbox. Uma fanpage no Facebook e uma conta no Instagram foram criadas também, para quem quisesse acompanhar o trabalho em rede.

No dia da votação, nos espalhamos pela cidade, em horários diferentes, para registrar o movimento. Acompanhei o jornalista Wenner Tito e o fotógrafo Márcio Lourenço em entrevista ao pastor Samuel Mawhinney, da Igreja Presbiteriana, que gentilmente nos contou sobre o posicionamento religioso.

A Irlanda, um dos países mais conservadores da Europa e de maioria católica poderia agora mostrar que o direito civil caminha independente da fé. Perguntei à Mawhinney se ele acreditava que as últimas declarações do papa Francisco poderiam influenciar na tomada de decisão do povo irlandês e ele me garantiu que sim, ressaltando que acreditava que o novo posicionamento da Igreja Católica devia-se a sua gradual perda de fiéis nos últimos anos.

No pátio do Dublin Castle, cenário histórico da Independência Irlandesa, um telão foi montado com a apuração das urnas em tempo real. A cada vitória local do sim, gays, lésbicas, travestis, héteros e inclassificáveis se uniam em um só aplauso. Era um sábado ensolarado e eu repetia o discurso que ouvi de uma mãe que era a favor do sim, diante do principal argumento de quem era contra, alegando que a união prejudicaria a educação das crianças.

“Eu voto sim, porque meus filhos são pequenos e não sei se amanhã eles terão vontade de casar. Se tiverem e for com alguém do mesmo sexo, quero que tenham esse direito. Se não, quero que meus netos tenham esse direito, se assim quiserem. Eu não preciso ser gay para ser a favor do ser humano e ser a favor de uma sociedade mais amorosa” – disse a moça que jamais saberei o nome, mas que me marcou, por resumir em palavras o que eu estava sentindo.

No meu celular, imagens em preto e branco registradas pelo novo amigo Pedro Machado, deixaram o momento ainda mais poético. No palco, a drag queen Panti levantava a placa “equal” enquanto era ovacionada pelo povo que aguardava o resultado oficial.

A vitória do sim somou 62% dos votos. O mundo inteiro ganhou com essa decisão que partiu daqui. A começar pelos brasileiros do coletivo que formamos, Equality Brazil: foi assim que nos conhecemos, descobrimos histórias, trocamos ideias, aprendemos e, enfim, crescemos mais um pouco. Com tudo isso, é claro que o resultado não poderia ter saído mais bacana, dá só uma olhada.

Por fim, quero agradecer a coragem do jornalista Junior Milério, que foi o primeiro a dar a cara à tapa e convidar outros jornalistas para esse projeto. Sem ele, nada disso teria sido possível e essa teria sido só mais uma notícia em nossos jornais.

Fotos de Pedro Machado

A voz das avós

Foi na Casa de Saramago, em Lisboa que assisti pela primeira vez esse vídeo, uma carta do escritor à avó. Poucas pessoas estavam na sala e a cadeira que me sentei era a primeira em frente à tela. Meus pensamentos fluíram, incontroláveis, diante das palavras lusitanas. Será que minha bisavó foi assim? Será que antes de cruzarem o oceano para me deixarem o Brasil como herança, familiares que jamais conhecerei, viviam tranquilamente em uma aldeia portuguesa? E qual a diferença entre elas e tantas outras avós? Nenhuma. A poesia machucada das avós não tem nação. Quando percebi, chorei feito criança.

Lembrei na hora de um projeto que admiro e acompanho, A voz das avós. Treze avós nativas, espalhadas pelo mundo, se uniram com a missão de construir comunidades sustentáveis, passando ensinamentos seculares para as futuras gerações. A avó brasileira, Maria Alice, é responsável por passar os ensinamentos de nossas florestas.

“Quando as Avós falam… A Terra se cura;

Quando as Avós oram… A sabedoria se revela;

Quando as Avós cantam… A Terra se integra em um todo.”

Essas avós precisam de ajuda voluntária, em especial referente às traduções, já que o grupo é formado por integrantes de diversos países. Se você acredita que pode ajuda-las, por favor, não hesite em mandar um e-mail para: avozdasavos@gmail.com E viva o poder feminino. E viva a vó Terra.

Update: acabo de descobrir esse música linda, que merece um espaço perto de tantas avós maravilhosas:

Dois Dias, Uma Noite

A indicação de Marion Cotillard ao Oscar de melhor atriz esse ano pelo filme dos irmãos Dardenne só foi considerada uma surpresa pela comunidade cinéfila e crítica, porque – familiarizados com a “bundamolice” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – todo mundo contava com o esquecimento da excepcional atriz francesa (vencedora da estatueta em 2008 por Piaf – Um Hino ao Amor), merecedora da indicação tanto pelo maravilhoso filme da dupla belga, como pelo belíssimo Era Uma Vez em Nova York de James Gray. Mas vez ou outra eles acertam, e em Dois Dias, Uma Noite (lançado por aqui oficialmente no começo de Fevereiro) Cotillard só não é maior que o filme, pois a pequenez e intimismo do longa são justamente os atributos que fazem dele uma obra-prima.

Em uma hora e meia de uma narrativa naturalista e sem arroubos estilísticos (onde a trilha sonora se ausenta e a montagem é de uma simplicidade franciscana), a câmera de Jean-Pierre e Luc acompanha Sandra (Cotillard em um estado de graça divina, numa atuação que é o cúmulo da naturalidade de imersão dramática – termo criado por mim na concepção desse texto, e com potencial para ser utilizado em escolas de atuação), mãe de duas crianças pequenas e funcionária de uma fábrica de médio porte, que, saindo de uma depressão severa, precisa lidar com a possibilidade de ser despedida do emprego caso seus colegas de trabalho não abdiquem de um bônus ao qual têm direito. O filme acompanha não só a via-crúcis de suas humilhantes visitas a cada um dos funcionários para tentar dissuadi-los a abrir mão do dinheiro extra, como também a pressão que isso exerce sobre seu frágil estado emocional durante os dois dias e uma noite desse processo.

Pode-se conjecturar a respeito das intenções mais amplas do roteiro dos Dardenne ao expor o absurdo da condição de desigualdade social ilustrada pela situação de Sandra (que engloba desde a falta de humanidade do patrão ao colocar seus funcionários para escolher entre um esperado acréscimo salarial e a permanência de uma colega com problemas de saúde, passando pelo próprio dilema moral desses personagens, até a luta da mulher em questão para manter a dignidade e o emprego, enquanto enfrenta a angústia inerente à depressão), mas ainda que tal abertura de escopo torne o filme mais pungente, é mesmo o microcosmo explorado sem maniqueísmo barato que faz de Dois Dias, Uma Noite tão relevante enquanto obra cinematográfica.

Em gestos mínimos, olhares profundos, fala sofrida e postura rendida, Cotillard dá vida à Sandra com o máximo de verdade que uma atuação é capaz de evocar, e enquanto a personagem lida com reações naturais de apoio e rejeição ao longo de sua inglória missão, segue para o fim de sua jornada tão incerta de sua resolução quanto nós.

O inesperado desfecho impressiona pela humanidade da mensagem que transmite sem qualquer pedantismo ou pieguice. Belo e devastador!

Uma casa pra mama

Era 2013. Eu me sentia incomodada em passar boa parte do meu tempo pensando na minha carreira ( e como ser uma profissional melhor entre os melhores profissionais? hoje eu sei a resposta: afundando no tédio, claro). Foi o ano em que comecei a planejar a quebra desse ciclo vicioso até chegar na vida que eu construo hoje.

Pois bem, àquela altura eu não conseguiria lutar por propósitos maiores, por falta de tempo. Mas separei um dinheiro que eu tinha guardado e decidi que iria doar para alguma pessoa que poderia me representar, fazendo o que eu gostaria de estar fazendo naquele exato momento  – alguém que estava fazendo diferença no mundo e não estava presa dentro de um escritório, conhecendo países pelo Instagram.

Esse alguém era a Renata, uma brasileira que estava na África do Sul e que, por intermédio da Sílvia, tinha acabado de publicar seu novo projeto no Benfeitoria. A proposta era simples: havia uma senhora africana, mais conhecida por mama Sylvia, que adotou crianças órfãs – em sua maioria filhos de vítimas do HIV – e criou um orfanato em meio a segunda maior favela da África do Sul. As condições da casa que abrigava as crianças eram paupérrimas e a ideia era construir um novo lar para a mama e seus pequenos.

Lembro de assistir a esse vídeo e pensar “Isso, é isso o que eu queria estar fazendo exatamente agora! Que as mãos de Renata sejam as minhas e que esse dinheiro transforme meu trabalho em algo maior, de alguma forma”.

Apertei o enter e segui a vida. No mesmo ano, tive que escrever a bendita carta que pede para que o Sindicato não morda parte do meu salário (se você teve um histórico positivo em seu relacionamento com o Sindicato da sua área, sinta-se abençoado; não foi o meu caso). E foi na fila quilométrica que decidi que aquele dinheiro que eu estaria poupando (cerca de 30 reais por mês, a gente fica tentado a desistir de lutar por isso na fila, debaixo de Sol) não faria tanta diferença assim na minha vida mas gente, por favor, somos brasileiros: faz diferença na vida de muita gente, sim!

Então passei a escolher um projeto por mês. Alguns eu doava o equivalente a alguns meses de Sindicato. E era sempre muito bom poder apoiar de alguma forma, aquilo que eu acredito. É, sou dessas de botar fé na humanidade. E vou te falar que nosso lance é recíproco. Ontem mesmo recebi um e-mail carinhoso da Sílvia e da Renata, com esse vídeo que me fez chorar por alguns minutos:

“Fizemos o que podíamos dentro da nossa posição social. O Estado é falho, tanto aqui na África do Sul como no Brasil. Mas não é porque o sistema político é falho, que isso tira a nossa responsabilidade social dentro de uma sociedade (local e mundial) injusta e desigual. Por que nós podíamos dormir sabendo que o teto não iria cair durante a noite e a Mama e as crianças não? 
Nós não mudamos o mundo. E nem conseguimos resolver todos os problemas e preconceitos sociais que a Mama e as crianças vivem todos os dias. Mas fizemos aquilo que estava ao nosso alcance. E agora a Mama e as crianças não precisam mais tomar banho de balde, eles tem chuveiro e banheira. Agora a Mama e as crianças não precisam dormir no mesmo quarto, a Mama tem o quarto dela e as crianças se dividem entre dois quartos com beliches. Agora a Mama e as crianças também podem dormir sabendo que o teto não vai cair durante a noite.”
Fiquei feliz de ver o quanto eu, mama Sylvia, Silvia e Renata caminhamos nos últimos anos. Deu vontade de pegar o avião e correr para abraçar todo mundo pessoalmente. Quem sabe nas próximas férias…

Museum of Modern Art Ireland

O Museum of Modern Art Ireland (IMMA) era um dos museus de Dublin que eu mais tinha curiosidade de conhecer e acabou sendo um dos últimos, devido à localização.

Mas no último final de semana me organizei para a missão e, qual não foi minha surpresa, ao me deparar com um suntuoso prédio do século 17, que já foi a casa de inúmeros soldados aposentados no antigo Royal Hospital Kilmainham.

É nesse cenário que me encontrei com as produções dos irlandeses Duncan Campbell,  Gordon Lambert e da inglesa Linder Sterling – essa última, exibe suas obras que já rodaram o mundo questionando a sexualização da mulher. Sterling já é bem conhecida pelo posicionamento feminista, mas não inova, limitando corpos nús relacionados a objetos e ao prazer carnal. Deixa influências políticas e religiosas (entre tantas outras) de fora do problema social, fazendo com que a mídia e o homem sejam os únicos pontos focais. De novo. Ou vai dizer que você nunca viu obras, posicionamento e abordagem bem semelhantes?

Mas é claro que o painel luminoso com os dizeres “Anatomy is not destiny” resgatou meu relacionamento com a artista durante a exposição e me fez feliz ao pensar sobre a afirmação.

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Já Campbell não decepciona e documenta fatos curiosos, como em “Make it New John”.

O passeio pelo IMMA vale a tarde sem pressa, com direito à passeio pelo parque que cerca o prédio e café no porão histórico. Como na grande maioria dos museus irlandeses, a entrada é gratuita.

Cantina do tio Giuseppe

Falar sobre massa é quase que tão polêmico quanto falar sobre religião, política ou futebol.

Por isso combinei comigo mesma que não contaria nunca, a ninguém, que a melhor casa de massas do país fica entre as montanhas de São Bento do Sapucaí.

Ah, não…daria tanto trabalho ter que convencer que o sabor vale cada km rodado até lá. Sem falar que, almoçar de frente para montanhas de um interior com ares de província européia, é realmente chato.

A última vez que fui, fazia tanto frio que fui obrigada a comer meu nhoque de espinafre ao molho gorgonzola acompanhado de um Pinot Noir. Veja só pelo o que já tive que passar nessa vida…

E o atendimento, então? A gente se sente em casa. Mal a gente chega, lá vem o Abel cheio de cuidados, oferecendo sardela, berinjela, espaguete ao sugo, lasanha e uma porção de outras coisas que nem vale comentar.

Pra piorar o molho é fresquinho, feito na hora. E de sobremesa ainda tem tiramissú e licor de limão. Muito desagradável.

Quem acha que não pode ficar pior que isso, se engana. Ainda por cima, eles têm a coragem de ter um bom preço.

Se eu fosse você, evitava.

Vou deixar aqui o endereço, para que você possa passar longe da Cantina tio Giuseppe (o restaurante do Abé):

Estrada do Paiol Grande (caminho para a Pedra do Baú), km 2,5 – São Bento do Sapucaí

obs. apenas a título de curiosidade: o rodízio de massas (entrada, salada, espaguete ao sugo, nhoque de espinafre ao molho gorgonzola, lasanha, rondelli e cannelloni) é R$18,00 por pessoa. Absurdo!

Palhaços ou humoristas?

Segunda-feira é dia de “É tudo Improviso”, no ar há duas semanas pela Band.

Para quem ainda não assistiu, o programa exibe jogos de improviso com o comando de Márcio Ballas.

Ballas foi meu perfilado no Trabalho de Conclusão de Curso, como já comentado aqui e confesso que fiquei curiosa para vê-lo como apresentador.

Ouvi muita gente dizendo que a novidade não passa de uma cópia do Quinta Categoria ou um rascunho do Jogando no Quintal…então vou resumir um pouco do que aprendi nesse ano de estudos sobre palhaço.

Ballas cursou Publicidade, Propaganda e Marketing na ESPM, onde reencontrou o amigo de infância, Dan Stulbach.

Stulbach dirigia o grupo de teatro da faculdade e certa vez, na falta de um ator para a montagem da peça, chamou Ballas para substituí-lo. Depois da experiência, juntaram-se a mais dois amigos e formaram o grupo Tela Viva, representando pequenas peças de humor criadas para homenagear pessoas anônimas em festas e eventos.

Em um anúncio de revista, Ballas viu um workshop de clown (palhaço) e, por curiosidade, o fez. Depois desse primeiro contato, passou a pesquisar melhor esse universo e chegou a porta de Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria.

Nogueira explicou que não davam cursos e não contratavam palhaços sem formação artística. Mas deu a dica: a Ong brasileira baseou-se na americana, Big Apple Circus Clown Care Unit, em Nova Iorque. Ballas então, partiu rumo à terra do Tio Sam.

Por lá fez alguns workshops e descobriu que a escola de formação de palhaços estava na França. Três anos depois, encerrava o cursos de Teatro Físico com ênfase em Clown, na escola de Jacques Lecoq, em Paris.

Ballas continuou os estudos de clown, batizou seu palhaço como João Grandão e pouco tempo depois passou a participar da Ong Palhaços sem Fronteiras, visitando crianças em zonas de conflito como Madagascar e o campo de refugiados da guerra do Kôsovo.

De volta ao Brasil, retornou aos Doutores da Alegria e começou seu trabalho com crianças em hospitais brasileiros. Lá, conheceu César Gouvêa – o palhaço Cízar Parker e fundou o Jogando no Quintal, um jogo de improviso com palhaços. O Jogando no Quintal cresceu e passou a produzir outras peças teatrais com base no improviso e a oferecer cursos na área. O jogo de improviso no Brasil até então era pouco conhecido. Por esse motivo, ele foi convidado para se tornar o treinador dos Improváveis, jogando junto aos Barbixas que, pouco tempo depois, passaram a jogar com Marcos Mion no programa de improviso Quinta Categoria, exibido pela MTV.

No ano passado, o Jogando no Quintal foi convidado para ter um quadro dentro do Programa Novo, na Rede Cultura. E agora, Márcio Ballas apresenta o É tudo Improviso, programa criado para cobrir as férias do CQC.

Quem assistiu e já conhecia seu trabalho, pôde reparar que há uma grande mistura de toda sua trajetória. Márcio Ballas apresenta o programa como João Grandão liderava o Jogando no Quintal. A bandinha de palhaços tocando ao vivo foi substituída por uma banda de “caras limpas”. Os Barbixas seguiram o mestre. Assim como Marco Gonçalves, o palhaço Fonseca. As Olívias trouxeram feminilidade à mistura e o improviso tornou-se popular.

Eu gostei do que vi. O público gostou do que viu. E já há rumores de que o programa se torne parte da grade.

Mas…qual a diferença entre um jogo de improvisação com palhaços e um jogo de improvisação com humoristas? Apenas a ausência da maquiagem? Em um dos encontros com Ballas fiz essa pergunta, veja só o que ele me respondeu:

“Eu acho que a diferença do trabalho do palhaço é que ele ri dele mesmo e o humorista trabalha com humor. Mas existem dois tipos de humor, eu acho que eles são diferentes: um que ri de si mesmo e tem a ver com o palhaço e o outro que você ri das coisas, ri das situações. O palhaço ri muito dele, ele tá sempre na situação, ele se coloca, ele se mostra, ele pode até brincar com o público mas ele tá sempre de igual pra igual, com olho no olho, ele se coloca muito, ele coloca os defeitos dele, ele coloca qualidades, ele conta a história dele,então tem muito a ver com humor pessoal…”

Preferem os palhaços ou os humoristas?

Obs. A única coisa que deixou a desejar foi a banda Pára-quedas. Ainda prefiro a banda de palhaços.