A (não) questão de Deus

Sei que religião é um assunto delicado. Imagine a ausência de. Mas justamente por ser delicado é pouco debatido e isso faz com que seja pouco pensado. Como devem imaginar, aquilo que é pouco pensado vira tabú. E tabús existem para serem quebrados.

A minha história com religião aconteceu um pouquinho diferente da história de grande parte das pessoas. Isso porque meus pais não escolheram por mim, mas abriram espaço para que eu escolhesse o que queria seguir, na hora em que eu sentisse essa necessidade.

Aconteceu de eu ter estudado em um colégio espanhol católico, com missas, padres e aulas de religião. Um dos meus amigos era muçulmano e podia nos contar sobre o Corão e fazer suas próprias orações durante a oração católica de toda manhã. Foi estudando algumas tardes na casa dele que aprendi a importância dos anjos para a fé deles ( em uma ocasião a priminha dormia sorrindo no sofá, já era hora de ir embora mas a avó não deixou acordá-la pois criança que dorme sorrindo está brincando com os anjos, não pode ser interrompida). Tive também uma melhor amiga evangélica, que permanecia em pé e em silêncio durante as missas em homenagem à Nossa Senhora, mostrando respeito mesmo na ausência de devoção. Com ela cheguei a frequentar dois ou três cultos para saber melhor sobre o que ela acreditava.

Na mesma época lembro de minha mãe ter aulas com um rabino sobre a Kabbalah Judaica e me chamar para participar. Eu me encantei pelas histórias tanto o quanto me encantava pelo padre Mathias, um senhor de 83 anos de idade, me contando sobre as parábolas de Jesus Cristo e as aparições de Nossa Senhora.

Essa liberdade de aprender sobre as diferentes crenças sem julgamento, ainda criança, me ensinou respeita-las. Lembro da minha mãe curiosa, querendo entender como eu tinha enxergado a religião do amiguinho, depois de passar uma tarde fora de casa.

Por volta dos meus doze anos eu escolhi meus padrinhos para meu batizado católico. E já comecei quebrando regras ao escolher um padrinho budista.

Veja só, dancei valsa entre igrejas, templos, terreiros, centros e mesquitas, mas a ausência de fé nunca tinha sido uma possibilidade. Apesar de saber que tive avô e bisavô ateus, pensar sobre isso só se fez presente quando eu, já adulta, me apaixonei por um ateu.

E isso é ser “do mal”? Afinal, o que é não acreditar? Quem me explicou foi o humorista e escritor português, Ricardo Araújo Pereira:

Repare que Ricardo está em uma igreja católica, falando com cristãos sobre a ausência de fé. Em sua fala cita Platão, Shakespeare a até mesmo a própria Bíblia. As questões levantadas em sua não crença são muito semelhantes às questões que me fiz na busca por uma crença. Elas também estão próximas do teólogo e escritor Rubem Alves, que acreditou em Deus mas não botou fé em religião:

Faz tempo que para pensar sobre Deus não leio os teólogos, leio os poetas. (Rubem Alves)

Assim como não há nenhuma desonra ao não gostar de música clássica, gosto de acreditar que não há desonra na falta de fé. E nem estou entrando no quesito de discutir o fato de sermos rotulado por religiões ou machismo predominante em livros sagrados, a manipulação de massas, o massacre, as mortes, a promoção de violência em nome de Deus, nem nada. Mas acho que, se homens, mulheres (e sem gêneros definidos), negros, brancos (e coloridos),  são iguais perante a vida humana (e olha que sagrado esse reconhecimento do outro em si mesmo, com amor e acolhimento), por que não unir a crença à descrença e fazer um bom samba?

Chega de sofrimento, gente. Deus não gosta disso não. Não é não, Suassuna?