“O status de um palhaço numa sociedade reflete o interesse que essa sociedade tem em conhecer a verdade”
Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria
Quem me conhece, sabe qual a importância do arquétipo em minha vida. Pra quem não me conhece, vou contar.
Quando criança morria de pavor. Medo era pouco. Passei a festa de aniversário do meu primo in-te-i-ri-nha atrás da porta da cozinha, escondida do palhaço. Quando fiz 10 anos (mais ou menos) estava passeando com minha mãe e minha irmã pelo Parque da Água Branca e no meio de uma feira temática, eis que surge em minha frente um palhaço, dizendo:
- Quer ver eu advinhar seu nome?
-Quero!
-É Beatriz!
-É isso mesmo!
O palhaço assustou. Possivelmente a brincadeira começava pelo erro da advinha. Ele confirmou com a minha mãe para saber se eu não estava brincando. E eu, pela primeira vez na vida, ri de um palhaço. Ri por ter conseguido assustar o palhaço.
Pois bem, na minha adolescência a empresa da minha mãe contribuía para a Ong Doutores da Alegria. Então, fomos à exposição dos Doutores, no sesc Vila Mariana. Constatei que, diferentemente do pavor que tenho de baratas, o meu medo por palhaços poderia ser revertido a amor. Me apaixonei pelo trabalho e me encantei com a delicadeza das brincadeiras e dos traços de maquiagem. Ia além do riso. Da crítica. Palhaço ali, era também poesia.
Então: Porque é que o palhaço da festa do meu primo me dava pavor e o palhaço do Parque da Água Branca não?
A dúvida, virou meu pretexto para fazer o tcc. Descobrir e expor as diferenças entre o palhaço de circo e o palhaço de teatro ( e acabou indo além dessas limitações). Pontapé inicial que me introduziu a um mundo delicioso de estudos durante um ano inteiro.
O professor sugeriu que contássemos a vida de algum palhaço, para que, através da história, introduzíssemos o assunto. Por sorte, fomos orientadas por Fábio Cardoso, mestre cultural em nossa Universidade. Quando digo no plural, me refiro à minha parceira Roberta Schiazza, jornalista e bailarina.
Pesquisamos a vida de inúmeros palhaços brasileiros até chegar a uma história cinematográfica. Márcio Ballas era (e ainda é) o dono dessa vida tão repleta de detalhes inusitados. Um prato cheio para o jornalismo.
Então, tudo o que se referia a palhaço passou a me interessar. Peças, livros, sons, fotografias. E foi no meio da bagunça, que encontrei uma fotografia do palhaço do Parque da Água Branca. E, naquele instante fui eu que advinhei o nome do palhaço.
Ele era Márcio Ballas. Alguns anos mais jovem. E eu, alguns anos menos criança.
Com o tempo contarei melhor meu tcc, compartilhando o que aprendi. Enfim, hoje ele trabalha no Jogando no Quintal (é co-fundador do grupo), faz parte do espetáculo Caleidoscópio e participa do grupo de improviso Improváveis (entre tantas outras coisas).
O Jogando é uma Cia. que está promovendo 2 cusos de pequena duração nesse final de semana. Um deles é o de improviso, com Rhena de Faria (parceira de Ballas em Caleidoscópio e palhaça-atleta). O outro é de clown com a Bete Dorgam. Ambos cursos de ponta para quem quer entender um pouco melhor o universo clownesco, vivenciando práticas e posturas que possivelmente mostrarão um novo ângulo para enxergar a mesma vida.
Tive o prazer de vivenciar a prática do arquétipo com a Bete e diria que é algo impagável. Ela é mestre no assunto e transpira sabedoria.
Aos palhaços que conheci durante toda a vida, aos que conhecerei, aos que ainda nascerão, aos entrevistados, assistidos, lembrados e esquecidos, minha profunda gratidão pelos momentos compartilhados.
“O clown (palhaço) representa uma situação de desnível, de inadequação do homem frente à vida. Através dele exorcizamos a nossa impotência, as nossas contradições e, principalmente, a luta ridícula e desproporcional contra os fantasmas de nosso egoísmo, de nossa vaidade e de nossa ilusão.”
Federico Fellini – cinesta italiano amante da arte clown


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